Florbela Espanca
A águia, será uma águia a valer ou simplesmente um milhafre?
(Florbela Espanca, Diário, 1.9.1930)
A águia, será uma águia a valer ou simplesmente um milhafre?
(Florbela Espanca, Diário, 1.9.1930)
Guia astrológico de JULHO para os nascidos de 22 Jun a 22 Jul
AMOR – As suas esperanças serão realizadas se puser os seus projectos em prática. Mas, não faça propostas sem esclarecer bem o que se propões fazer. Terá desilusões se levar os seus ideais para além das realidades possíveis.
PROFISSÃO – Período propício a todas as iniciativas pessoais. Qualquer que seja a natureza das suas ocupações obterá bons resultados. Nesta altura, a sua imaginação será muito fecunda, o que será de grande interesse para realizações de grande alcance futuro.
DINHEIRO – Liberte-se da sua timidez, porque se arrisca a deixar escapar uma boa oportunidade de escapar uma boa oportunidade de fortalecer a sua posição económica. Mês indicado a excelentes compras e vendas.
Estou a desejar-lhe um mês pleno de êxitos. Se tal não acontecer, não se preocupe pois estas previsões foram feitas para o ano de 1959. Mas pode ser que se repitam já este ano…
Os olhos do meu cão enternecem-me. Em que rosto humano, num outro mundo, vi eu já estes olhos de veludo doirado, de cantos ligeiramente macerados, com este mesmo olhar pueril e grave, entre interrogativo e ansioso?
(In Diário, Florbela Espanca - 13.1.1930)
Dizem que um belo dia um oleiro se foi aconselhar com Sécrates. Na incerteza se devia casar ou permanecer solteiro, quis saber a opinião do filósofo. Este, não tendo dúvidas, foi peremptório:
- "Faças o que fizeres, vais-te arrepender"
Para todo o homem, mesmo o mais culto, a humanidade consiste especialmente naquela porção de homens que residem no seu bairro. todos os outros restantes , à maneira que se afastam desse centro privilegiado, se vão gradualmente distanciando também em relação ao seu sentimento, de sorte que aos mais remotos já quase os não distingue da natureza inanimada.
(Eça de Queiroz)
LA
Là
juste là dèposez-
moi.
La vie a commencé de ramper hors mes
yeux
comme une longue et mince colonne
de fourmis
à la recherche d'un noveau nid.
(Ravji Patel - Murmurado instantes antes de morrer)
BUshRADAS - I
A Administração que eu vou trazer é um grupo de homens e mulheres
que estão focalizados no que é melhor para a América,
homens e mulheres honestos,
homens e mulheres decentes,
mulheres que verão o serviço ao nosso país
como um grande privilégio
e que não vão sujar a casa.
(George Bush, Des Moines)
Um político coerente é aquele que, tendo-se vendido uma vez, permanece fiel aos seus princípios vendendo-se o resto da vida.
(Anónimo)
O MOSQUITO
Satânico é meu pensamento a teu respeito, e ardente é o meu desejo de apertar-te em minha mão, numa sede de vingança incontestável pelo que me fizeste ontem. A noite era quente e calma e eu estava em minha cama, quando, sorrateiramente, te aproximaste. Encostaste o teu corpo sem roupa no meu corpo nu, sem o mínimo pudor! Percebendo minha aparente indiferença, aconchegaste-te a mim e mordeste-me sem escrúpulos. Até nos mais íntimos lugares. Eu adormeci. Hoje quando acordei, procurei-te numa ânsia ardente, mas em vão. Deixaste em meu corpo e no lençol provas irrefutáveis do que entre nós ocorreu durante a noite. Esta noite recolho-me mais cedo, para na mesma cama te esperar. Quando chegares, quero te agarrar com avidez e força.
Quero te apertar com todas as forças de minhas mãos. Só descansarei quando vir sair o sangue quente do seu corpo. Só assim, livrar-me-ei de ti, mosquito Filho da Puta!
(Drummond de Andrade)
A poesia de Rui Barbosa (poeta brasileiro), transcrita a seguir, poderia ter sido escrita hoje, sem mudar uma palavra...
SINTO VERGONHA DE MIM
Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-Mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o 'eu' feliz a qualquer custo,
buscando a tal 'felicidade'
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.
Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos 'floreios' para justificar
actos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre 'contestar',
voltar atrás
e mudar o futuro.
Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...
Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira para enxugar o meu suor
ou enrolar o meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo deste mundo!
'De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto'
(Rui Barbosa)
ETERNIDADE
Não é tempo de flores
nem da chuva e da neve;
não é tempo do amor,
tão esquivo e tão breve;
não é tempo de ceifa
e dos frutos cortados;
não é tempo de festa
nas vinhas e nos prados;
não é tempo de ter,
de perder ou ganhar
(quem andou - ai de nós!,
não tem mais para andar);
não é tempo sequer
de estar alegre ou triste:
A Vida é imortal,
o tempo não existe.
(Edgar Carneiro)
ARROZ Á ALBERTO PIMENTEL
AO EX.MO SR. ALBERTO PIMENTEL, QUE TANTO HONROU ESTE LIVRO, PRECEDENDO-O D’UM PROLOGO, OFFERECE JOÃO DA MATTA O SEGUINTE PRATO DE SUA INVENÇÃO.
Cozem-se em agua e pouco sal 500 grammas d’arroz de Veneza, e em estando bem cozido, mas com o grão bem inteiro, tira-se do lume e mistura-se-lhe 100 grammas de boa manteiga, mexendo-se muito bem: quando estiver frio, junta-se-lhe 8 gemmas d’ovos batidos e uma boa porção de queijo parmezão ralado, ligando tudo muito bem emquanto se faz o seguinte:
Cozem-se em agua e sal 24 couvesinhas chamadas couves de Bruxellas (são uns repollinhos do tamanho d’um ovo de perdiz) depois de cozidas escorre-se-lhe a agua e temperam-se com manteiga e uma pitada de pimenta, e guardam-se n’um prato, emquanto se faz a seguinte:
Tira-se a carne toda a dois frangos assados e faz-se em filetes; faz-se também em fatias delgadas um bocado de fêvera de presunto e frege-se em manteiga: em isto estando frito, tira-se e espera-se emquanto se prepara o que segue. Faz-se uma ou mais omelettes d’ovos batidos, fritos em manteiga, porém em frigideira de fundo chato e que fiquem bem delgadas (da grossura de um vintem) o que se obtem, estendendo com um garfo os ovos na occasião de se fritarem; em estando fritos, toma-se uma fôrma (das de fazer pudim) que seja lisa, unta-se toda com manteiga e forra-se o fundo e ilhargas com a omelette que fizemos; em a fôrma estando bem forrada, põe-se uma camada de filetes do frango e presunto em cima do fundo sem o cobrir todo, em cima d’estes filetes uma camada do arroz que acima fizemos, em cima deste umas couvesinhas de Bruxellas, dispostas com arte, em cima d’estas uma camada de arroz, e assim successivamente e pela mesma ordem até ficar a fôrma cheia, notando porém que a última camada deve ser d’arroz; em estando assim cobre-se com uma tampa feita também d’omelette, e mette-se a fôrma n’uma cassarola para cozer em banho-maria, mas com cuidado para que não entre agua dentro; estando cozida (em 3 quartos de hora se coze), tira-se do forno e serve-se.
In Arte de cozinha, de João da Matta, 1900
S. PAIO
Na Torreira, distrito de Aveiro, faz-se, todos os anos, uma festa e romaria a S. Paio, padroeiro da freguesia da Murtosa.
Anda esta festa ligada com a usança deste povo.
S. Paio é advogado das sezões.
Por ocasião da romaria e da festa, as mulheres da Murtosa dão ao santo um banho num alguidar cheio de vinho e bebem depois a líquido, cantando com o fervor que lhes inspira a devoção e a pinga, a seguinte quadra:
Ó S. Paio da Torreira
ó milagroso santinho
hei-de cá voltar para o ano
lavar o santo em vinho.
O santo já está cor de chocolate, mas a devoção aumenta a par do consumo de vinho em que o santo é mergulhado.
(In Almanaque, 1950; ed. Civilização, Lª.)
ESCREVO NUM DOMINDO...
Escrevo num domingo, manhã alta, num dia amplo de luz suave, em que, sobre os telhados da cidade interrompida, o azul do céu sempre inédito fecha no esquecimento a existência misteriosa de astros…
É domingo em mim também…
Também meu coração vai a uma igreja que não sabe onde é, e vai vestido de um traje de veludo infante, com a cara corada das primeiras impressões a sorrir sem olhos tristes por cima do colarinho muito grande.
(In Livro do desassossego, Bernardo Soares)
A INDIFERENÇA
Primeiro levaram os comunistas,
mas eu não me importei
porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim não me afectou
porque eu não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei
porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez
de alguns padres,
mas como nunca fui religioso,
também não liguei.
Agora levaram-me a mim
e quando percebi,
já era tarde.
(Bertolt Brecht)
É triste não ter amigos? Ainda mais triste é não ter inimigos!
Porque, quem não tem inimigos, é sinal que não tem:
Nem talento que faça sombra,
nem carácter que impressione,
nem coragem para que o temam,
nem honra contra a qual murmurem,
nem bens que lhe cobicem,
nem coisa alguma que lhe invejem...
(Voltaire)
De tarde
Naquele «pic-nic» de burgueses,
houve uma cousa simplesmente bela,
e que, sem ter história nem grandezas,
em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
foste colher, sem imposturas tolas,
a um granzoal azul de grão-de-bico
um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco despois, em cima de uns penhascos,
nós acampámos, inda o sol de via;
e houve talhadas de melão, damascos.
e pão-de-ló molhado em malvasia
mas, todo púrpuro a sair da renda
dos teus dois seios como duas rolas,
era o supremo encanto da merenda
o ramalhete rubro das papoulas!
(Cesário Verde)
Pouco conhecimento faz que as criaturas se sintam orgulhosas.
Muito conhecimento, que se sintam humildes.
É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o céu, enquanto que as cheias as baixam para a terra, sua mãe.
Leonardo de Vinci
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
Democracia é a designação para um governo de minoria, eleito por uma maioria incompetente.
(G. Bernard Shaw)
Pergunta 20
- O que é que entrando nunca mais sahe?
R: A desconfiança
(In A Esphinge – palestra inigmatica ou livro de adivinhações …)
As portuguesas vistas por um estrangeiro
"A bela carnação das portuguesas, os seus grandes olhos negros, os seus dentes brancos e bem alinhados, os seus longos cabelos de ébano e a sua amável vivacidade colocá-las-iam na linha das europeias mais sedutoras, se à graça das francesas unissem a pequenez do pé espanhol."
(Augusto Walhlen)
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma… abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua… - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois… - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada…
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
(José Régio)
UM MISTÉRIO TENEBROSO
Entre Figueira de Castelo Rodrigo e Vila Nova de Foscoa, fica uma povoação chamada Vilar de Amargo, onde, (há pouco mais de 330 anos), se passou um caso impressionante, que ficou para sempre envolvido no mais denso mistério.
Segundo consta de um livro do arquivo paroquial, foram, certa noite de 1676, bater à porta do abade João de Barros Brito, dizendo-lhe que se levantasse depressa, para administrar os sacramentos a um enfermo agonizante. O padre arranjou-se sem demora, mas, quando abriu a porta para saber de quem se tratava, deparou com dois homens estranhos, mascarados e armados, que lhe impuseram silêncio e o obrigaram a acompanhá-los à igreja, afirmando que a sua presença ali se tornava urgentíssima.
O templo ficava então a uma certa distância da aldeia e o abade não teve possibilidade de chamar o sacristão nem a fortuna de topar com mais alguém pelo caminho.
No adro da igreja, encontravam-se alguns companheiros dos mascarados, que intimaram o reverendo a abrir a porta e entraram com ele de roldão, fechando-a novamente, com cuidado. Apresentaram-lhe então uma senhora, de aparência distinta e ricas vestes de seda, dizendo-lhe que a confessasse e lhe administrasse a comunhão – que eles lhe dariam o lavatório!...
Dirigiu-se o abade para o confessionário e, quando estava a ouvir a infeliz, notou que os homens abriam uma sepultura no pavimento da igreja. Compreendendo que o queriam tornar testemunha de um crime monstruoso, que não teria forças para impedir, resolveu o confessor demorar o mais possível o interrogatório, na esperança de que, entretanto, alguém o ajudasse a salvar a criatura. Os criminosos adivinharam-lhe, porém, as intenções e disseram-lhe em tom agreste que pusesse termo à confissão.
Não teve o padre outro remédio senão obedecer e, concedida a absolvição à penitente, deram-lhe os malvados o lavatório, para o que lhe haviam preparado um copo. Após a bebida, a desgraçada caiu morta imediatamente e os seus carrascos trataram logo de a sepultar, abalando em seguida, nos seus cavalos velozes.
Nunca foi possível averiguar os nomes da infeliz dama nem dos seus misteriosos assassinos e o horror que se apoderou do velho abade foi tal que, passados dias, deixou a igreja, a casa e a família e seguiu para Roma, de onde não regressou mais.
In Ver e crer, Julho, 1945
PERGUNTA
Nº 16 - Quaes foram as creaturas que nasceram sem embigo?
R: Adão e Eva
(In A Esphinge – palestra inigmatica ou livro de adivinhações …)
SELF-SERVICE
Certamente que já muitos se interrogaram quanto à origem desta modalidade que obriga as pessoas a servirem-se a si mesmas. [Diga-se que não é do meu agrado andar a fazer equilibrismo com a bandeja, sempre com receio de alguma coisa deixar cair. E um lugar que nunca mais vaga...).
Bem, mas vamos aos factos. Corria o ano de 1912 nos EUA (onde havia de ser...) e a crise impunha reduzir os gastos com o pessoal (será que a história se repete?). Então dois proprietários de restaurantes pensaram que se os clientes se servissem a eles próprios poderiam despedir alguns funcionários. E, tendo-o pensado, logo o fizeram.
Os pioneiros: Alpha Beta Food Market e Ward's Grocery.
Prometo: Se alguma vez for à Califórnia não porei os pés nestes restaurantes, mesmo que esteja cheiinho de fome!
Pergunta
14 - O que é que nunca se pode acabar?
R: O que nunca se principiou
(In A Esphinge – palestra inigmatica ou livro de adivinhações …)
Pergunta:
11 - O que é que não precisa de outra para ser um par?
R: Calças
(In A Esphinge – palestra inigmatica ou livro de adivinhações …)
Pergunta:
8 - Porque Santa Paula ficou viuva?
R: Porque morreu-lhe o marido.
(In A Esphinge – palestra inigmatica ou livro de adivinhações …)
ALDEIA - CIDADE
Eis porque a cidade às vezes me faz impressão: na Aldeia a gente dá os bons-dias a quem passa; a gente sabe quem está doente e empresta um termómetro e empresta o que for preciso, todos falamos com todos, todos nos importamos com todos, as caras são todas conhecidas.
Já na cidade não é assim, depois de dois ou três amigos do coração, há o exército dos amigos de café e das pessoas que a profissão nos obriga a conhecer; o resto do povo e mesmo todos os que não são amigos do coração, estão longe de nós, não convivem verdadeiraente connosco (...)
(In Diário, de Sebastião da Gama)
Pergunta:
6 - O que é que sendo inteira tem o nome de metade?
R: Uma meia
(In A Esphinge – palestra inigmatica ou livro de adivinhações …)
Perguntas
2 - Quando é que o mar se parece com um jardim?
R: Quando é mar de rosas.
(In A Esphinge – palestra inigmatica ou livro de adivinhações …)
Perguntas
1 - Qual das operações aritméticas é a mais antiga?
R: A multiplicação, que foi recomendada no princípio do mundo
(In A Esphinge – palestra inigmatica ou livro de adivinhações …)
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe
ou qualquer outra birita,
não precisa expedir
nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Um inesquecível 2008
cheio de boas sementeiras
e
melhores colheitas
"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade".
De hoje em diante todos os dias ao acordar, direi:
- Eu hoje vou ser feliz !
Vou lembrar de agradecer ao sol pelo seu calor e luminosidade. Sentirei queestou vivendo, respirando. Posso desfrutar de todos os recursos da natureza gratuitamente. Não preciso comprar o canto dos pássaros, nem o murmúrio das águas do mar. Lembrarei de sentir a beleza das árvores e das flores. Vou sorrir mais, sempre que puder.Vou cultivar mais amizades e neutralizar as inimizades. Não vou julgar os actos de meus semelhantes ou companheiros. Vou aprimorar os meus. Lembrarei de ligar para alguém para dizer que estou com saudade! Reservarei minutos de silêncio para ter a oportunidade de ouvir. Não vou lamentar nem amargar as injustiças.Vou pensar no que posso fazer para diminuir seus efeitos. Terei sempre em mente que um minuto passado, não volta mais. Vou viver todos os momentos, proveitosamente. Não vou sofrer por antecipação prevendo futuros incertos, nem com atraso, lembrando de coisas sobre as quais não tenho mais acção. Não vou pensar no que não tenho e que gostaria de ter, mas em como ser feliz com o que possuo. E, o maior bem que possuo, é a própria vida.
Vou lembrar de ler uma poesia e de ouvir uma canção, vou dedicá-las a alguém. Vou fazer alguma coisa para alguém, sem esperar nada em troca, apenas pelo prazer de ver alguém sorrir. Vou lembrar que existe alguém que me quer bem. Vou dedicar uns minutos de pensamento para os que já se foram, para que saibam que serão sempre uma doce lembrança, até que venhamos a nos encontrar outra vez. Vou procurar dar um pouco de alegria para alguém, especialmente quando sentir que a tristeza e o desânimo querem se aproximar.
E, quando a noite chegar, vou olhar para o céu, para as estrelas e para o luar e agradecer a Deus... Porque hoje eu fui feliz!...
(Carlos Drummond de Andrade)
ESTATÍSTICA
São necessários mil quilos para fazer uma bomba,
cinco gramas de flor para escrever um poema,
dez gramas de plumas para voar no azul,
vinte miligramas de medicamentos para salvar um homem,
cem gramas de pão para alegrar uma criança
e cento e setenta quilos de bolo
para casar a filha de um presidente.
(In O pássaro ferido, Sidónio Muralha)
PAPEL COLADO À PORTA DE UM ESTABELECIMENTO:
POLICÁRPO BENTOZO
Negossiãnte
Ármazães de Mercearia; de binho e outras espessilidádes, como: pirolitos, gazózas, larãnjádas , jinjinhas, sservejas, étcétér… Bêndesse também ortalissas: navos, cinouras, vatatas, coubes de bárias espessilidádes: coube lonbarda, coube felôr, corassão de voi, étcétér…
Estabelessimênto de tálho com cárnes de pôrco e pórca, de bitéla, baca, vorêgo, e cavrito. Bêndesse ssêbo a cinco mál réis cada qilo.
Noutro papel, por baixo:
Ôje não sse fia, amanhã ssim
Eu, abaicho acinado
POLICÁRPO BENTOZO
Está na hora de se embriagarem!
(...)
De vinho,
de poesia ou de virtude,
à Vossa escolha!
(Charles Baudelaire)
AUSÊNCIA
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.
(Sophia de Mello Breyner A.)
ENSAIO SOBRE DEUS
Uma das principais preocupações de Deus é criar gente nova. Assim, haverá também gente suficiente para cuidar da Terra e dos animais. Deus não cria pessoas adultas, mas só bebés. Eu acho que estes são muito fáceis de fazer porque são mais pequenos. Fazendo-nos bebés, Deus não perde tempo a ensinar-nos a andar ou a falar e deixa essa tarefa aos nossos pais, o que é muito bom para todos.
A segunda ocupação importante de Deus é escutar as nossas orações. Isto dá-lhe muito trabalho, com certeza, porque há algumas pessoas, como os Padres e as Irmãs, rezam a toda a hora e não só quando se vão deitar. Por isso, Deus não tem tempo para ver televisão ou jogar à playstation. Ele já deve estar tão habituado a ouvir toda a gente que às vezes nem precisamos de falar para Ele saber o que queremos.
Deus também vê tudo o que a gente faz. Eu acho que há menos gente dessa entre os que vão à igreja.
Jesus é o filho de Deus. Ele está na cruz apesar de ter feito muitas coisas fixes, como andar sobre as águas, multiplicar os pães, ressuscitar os mortos e ensinar aqueles que não queriam aprender. Eu acho é que alguém se cansou dos seus sermões e O matou. Jesus é mesmo bom, porque voltou a viver apesar de O vermos sempre na cruz. Ele ajuda o Pai a escutar as nossas orações e de vez em quando vem visitar-nos.
Temos de ir à igreja aos Domingos e também à catequese porque Deus fica contente e a gente também. É melhor fazer as outras coisas de que mais gostamos no Domingo à tarde porque assim temos mais tempo. Se não acreditas em Deus ficarás muito só, porque os teus pais não podem estar sempre contigo, enquanto que Ele está sempre disponível. É bom saber que ele está presente quando tens medo do escuro ou quando não sabes nadar bem. Mas não penses que Deus quer fazer as coisas em teu lugar.
Eu nunca vi Deus, mas sei que Ele me vê, mesmo quando jogo às escondidas. Também sei que um dia irei vê-Lo, como já aconteceu com a minha avó.
Por isso acredito em Deus.
(Anónimo de 8 anos; in Notícias da Madeira, 15.02.2007)
PENSAMENTO
E como quanto maior é a ignorância maior é a audácia, eis porque na nossa terra, onde a ignorância medra com pujante felicidade, a intolerância é profunda e audaz.
(Alfredo Pimenta, Política Portuguesa, 1913)
ORAÇÃO
Meu querido Jesus Cristo, tu disseste:
pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis;
batei, e abrir-se-vos-á,
Por causa dessa promessa, Senhor,
concede-me, que não peço ouro nem prata,
uma fé forte e inabalável.
Deixa-me encontrar aquilo que procuro.
Não busco prazer nem alegria do mundo,
mas consolo e alívio, por intermédio da Tua salutar palavra.
Abre-me, estou batendo;
não desejo o que o mundo considera alto e grande.
Nada disso me adianta diante de Ti.
Concede-me, antes, Teu Espírito Santo.
Que Ele ilumine o meu coração,
me fortaleça no medo e na necessidade,
me console e me preserve na verdadeira fé
e na confiança da Tua graça até ao fim.
(Martinho Lutero)
Da Carta de guia de casados
A reformação dos costumes coisa é boníssima e santíssima.Tem porém nas casadas seu limite; de maneira que por se darem de todo àqueles bons exercícios, não desamparem os da obrigação de seu estado, no qual Deus deixou virtude e santidade bastante para que, sem saírem dele, se possam salvar todos e todas, a quem compreende.
(...)
Convém que a casada tenha o seu confessor certo; e este seja pessoa grave e conhecida, e daquelas religiões que mais florescem no lugar onde viver. Muitas senhoras de grande estado vi confessar com curas e párocos de suas freguesias, que quando eles sejam homens doutos e sisudos, julgo por excelente costume. Pois como até na eleição do confessor pode haver desacerto, discreta resignação e desconfiança seria não fiar de seu juízo coisa tão importante, e seguir aquela que a Igreja tem feito, entregando sua consciência à pessoa a quem as entrega aquele a quem Deus e seu Vigário as tem entregado.
(D. Francisco Manuel de Melo)
«... vão remexendo no lixo à procura de algo que preste ou que possa ser concertado (...) não vale a pena debruçarmos-nos sobre o tema (...) o facto do senhor coleccionar sapatos femininos não tem nada demais ...»
(In DNA, 31.5.03)
«... vão remexendo no lixo à procura de algo que preste ou que possa ser consertado (...) não vale a pena debruçarmo-nos sobre o tema (...) o facto de o senhor coleccionar sapatos femininos não tem nada de mais ...»
O POTE DE OURO QUE NÃO ESTÁ NA WIKIPÉDIA
Tudo o que vale a pena exige esforço. E, quanto mais vale a pena, mais esforço exige. Isso é particularmente verdade sobre a Matemática: se investirmos um esforço pequeno sobre as matérias, ficando com um conhecimento superficial, de pouco ou nada nos valerá o “esforço”. A Matemática não se aprende na Wikipédia ou navegando pela Internet. Exige pensamento, estudo, concentração, treino e algo para que nos últimos não se inventou substituto – o contacto humano. Aquilo a que normalmente se chama “aulas”.
Não sei se isto parece aborrecido, mas é a melhor (se não mesmo a única) maneira de aprender Matemática. E aprender é não só uma aventura maravilhosa, como tem no final o pote de ouro da compreensão do mundo. E para transformar o mundo é preciso primeiro compreendê-lo.
Isac Asimov, num conto de mais de 50 anos, relata a seguinte história. Num futuro imaginário, as crianças brincam 364 dias por ano e um dia por ano o seu cérebro fica ligado a uma máquina com discos que lhes administram automaticamente todos os conhecimentos de que necessitam. Assim fazem toda a escolaridade e aprendem tudo o que precisam, da primária à universidade. Todo menos um rapazito. Desde os 7 anos de idade este rapaz foi obrigado a aprender à maneira antiga: estudando, tendo aulas, esforçando-se, compreendendo, investindo o seu tempo. Enquanto os seus amigos brincavam 364 dias, ele estudava. E assim foi, para sua grande frustração, incompreensão e mesmo revolta, até à idade adulta. Nessa altura foi chamado pelas classes governantes da sociedade. Começa por expor toda a sua revolta. Porque é que me trataram assim? Porque é que eu tive de me esforçar para aprender por mim próprio tudo aquilo que ensinaram aos outros sem esforço? E a resposta foi: “Porque tu foste escolhido para escrever os próximos discos”.
O pote de ouro da Matemática é o seguinte: todos os grandes avanços científicos e tecnológicos implicam a utilização de novas ferramentas matemáticas. Para dar um exemplo recente que muitos de nós temos nas mãos , uma desconhecida empresa de indústria pesada, que fabricava pneus e paste de papel, decidiu no final dos anos 60 virar-se para as telecomunicações. Estava num país com enorme densidade de pessoas altamente qualificadas do ponto de vista científico, técnico e matemático, e os grandes problemas matemáticos estavam a surgir. Era uma altura estratégica para entrar. O país era a Finlândia. A empresa era a Nokia, hoje o gigante mundial dos telemóveis.
Continua a fabricar pneus, embora quase ninguém saiba. Mas para isso não é preciso Matemática mais sofisticada do que a do século XVIII.
(Jorge Buescu, Publico, 22 Jun. 2007)
Este jovem professor da FCUL é autor de livros de divulgação científica:
- O mistério do Bilhete de Identidade e outras histórias – Crónicas das fronteiras da Ciência (2003, 8ª ed.), Gradiva.
- Da falsificação de euros aos pequenos mundos – Novas crónicas das fronteiras da Ciência, (2003), Gradiva.
- O fim do mundo está próximo?, (2007), Gradiva.
Se quer compreender melhor o mundo em que vive, não deixe de ler mesmo que lhe pareça que os seus conhecimentos de Matemática não permitem apreender tudo o que o autor pretende transmitir. No final fará, certamente, um saldo muito positivo.
Não faças aos outros o que desejas que façam a ti.
Os gostos deles podem não ser os teus.
(G. Bernard Shaw)
A um crucifixo
Não se perdeu teu sangue generoso,
nem padeceste em vão, quem quer que foste,
plebeu antigo, que amarrado ao poste
morreste como vil e faccioso.
Desse sangue maldito e ignominioso
surgiu armada uma invencível hoste…
Paz aos homens e guerra aos deuses! – pôs-te
em vão sobre o altar o vulgo ocioso…
Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti começa, um homem novo:
De ti data essa trágica linhagem.
Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,
lembraremos, herdeiros desse povo,
que entre nossos avós se conta Cristo.
(Antero de Quental)
GASTRONOMIA
"... eu fiquei no pátio cervejando e cachimbando com o aprazível Potte."
(In Relíquia, Eça de Queirós)
SUGESTÃO
Eu, que sou cega, posso dar uma sugestão aos que vêem - um conselho àqueles que deveriam fazer completo uso do dom da vista: servi-vos dos vossos olhos como se amanhã fôsseis cegar. O mesmo princípio é válido para os restantes sentidos. Ouvi a música das vozes, o canto de uma ave, os poderosos acordes de uma orquestra, como se amanhã fôsseis vítimas de surdez. Tocai em tudo o que desejais tocar, como se amanhã viésseis a ficar privados da faculdade do tacto. Aspirai o perfume das flores, saboreai com deleite os vossos alimentos, como se amanhã perdêsseis o olfacto e o paladar.
(In Three days to see, Hellen Keller)
ESTUDAR
... Estudar também é repartir,
também é saber dar
o que a gente souber dividir
para multiplicar...
(Ary dos Santos)
AMOR E COMPAIXÃO
Tem de haver um equilíbrio entre o desenvolvimento material e o espiritual, e esse equilíbrio só pode ser atingido com base no amor e na compaixão. Amor e compaixão são a essência de todas as religiões.
As religiões podem aprender umas com as outras. O fim último de todas as religiões é fazer seres humanos melhores. Seres humanos melhores são mais tolerantes, mais compassivos e menos egoístas.
(Dalai Lama)
UMA SÓ PALAVRA
A palavra do teu corpo
incendeia-se
na palavra do meu corpo
Somos agora uma só
palavra
silenciosa
A palavra do meu corpo
desmorona-se
na palavra do teu corpo.
(Casimiro de Brito)
Quem são os mortos?
Não são os mortos os que em doce calma
a paz desfrutam de uma tumba fria.
Mortos são os que levam morta a alma
e vivem todavia!
Não são os mortos, não, os que recebem
raios de luz em seus despojos mortos.
Os que morrem com honra são os vivos,
os que vivem sem honra são os mortos.
A vida não é a vida que vivemos.
A vida é a saudade em seu pudor profundo.
Por isso há mortos que no mundo vivem
e homens que vivem mortos, neste mundo.
(de Ricardo Palma, peruano (1833-1919)
VANITAS (VAIDADE)
Sonho que sou a Poetisa eleita,
aquela que tudo diz e tudo sabe,
que tem a inspiração pura e perfeita,
que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
para encher todo o mundo! E que deleita
mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
aquela de saber vasto e profundo,
aos pés de quem a terra anda curvada!
E quanto mais no céu eu vou sonhando,
e quanto mais no alto vou voando,
acordo do meu sonho... e não sou nada!...
CARTA DE GUIA DE CASADOS
Disse que seria bom ocupar a mulher no governo doméstico: e é bom, e é necessário, não só para que ela viva ocupada, senão para que o marido tenha menos esse trabalho.
Coisas tão miúdas não é bem que pejem o pensamento de um homem; e para os da mulher são mais convenientes. Pergunto: não se rira V. Mce. se vira um elefante carregado com um grão de trigo na tromba? Sim, por certo; e logo louvara a Deus se o visse levar no bico a uma formiga. Diz bem por isso o rifão: «Do homem a praça, da mulher a casa». Os maridos que em tudo querem mandar são dignos de repreensão, igualmente aos que não querem mandar em nada.
Enfim, Senhor N., fique assentado que o gasto ordinário convém que se entregue à mulher pela contentar, pela ocupar, pela confiar, por lhe dar aqueles cuidados, por lhe desviar outros.
(D. Francisco Manuel de Melo)
A cozinha alemã
Quem não conhece o bife à alemã (deutschesbifteck), carne picada e saborosa, que hoje é da cozinha internacional? Já o mesmo se não pode dizer do queijo Quark onde, com creme fresco, entra kumel, ou do queijo da Thuringia. Universal e alemão é entre os queijos o de Munster, que os alemães não têm em extraordinário apreço
E, se o leitor é, além de gastrónomo, curioso, quando passar em Munich não deixe de ir ao Hotel Vierjahreszeiten, Restaurante Walterspiel em Maximilianstrasse, 4, e peça para ver a Biblioteca de Gastronomia Francesa. Dá-nos o feitio alemão, e verá que vale a pena...
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
A cozinha alemã
Sim, porque na Alemanha come-se muito e bem.
A Brasserie Pschorr, de Munich, tem nos seus reclamos «porções para Gargantua», e o Wittelsbacherhof, de Spire, no palaitino, afirma que por 5,50 R. M. dará aos seus clientes um «repasto pantagruélico». Se ao lisonjear esta matéria quer o meu leitor o lisonjear dos olhos, vá a Berlim, ao Café Vaterland, em Postdamer Platz, e aí encontrará doze grandes salas, cada uma correspondendo a uma província da Alemanha, onde se servem os pratos regionais, por criadas em trajos característicos, ao som de músicas a elas peculiares. Mas é um ambiente espiritual o que deseja, como o de procurar Wagner em Beiruth? Procure em Bremen o Rats Keller, onde passaram velhos poetas e escritores conhecidos, e, aí, mandando subir da cave velhíssimos vinhos, terá sua evocação.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
A cozinha alemã
Têm fama as salsichas de Nuremberg, o salmão fumado, a sopa de ervilha seca ou de couves e o eisbein (saborosíssimos pimentos em vinagre).
Sim , porque na Alemanha come-se muito e bem.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
A cozinha alemã
Mas vale a pena provar o presunto da Westphalia, com que poucos podem competir, o salmão do Rheno, os patos de Vierland, as trutas de Eifel e, da Floresta negra, o seu caviar; ir a essa mesma Floresta Negra beber o seu Kirsch ou a sua framboesa; a Nuremberg, ao Bratwurstherzlein, um dos mais velhos restaurantes da Alemanha, comer as suas famosas salsichas, rivais das de Francfort, ou ao viveiro do Fischküche Luftsprung deliciar-se com as suas carpas fritas ou cozidas com manteiga, segundo as velhas receitas do cozinheiro da casa, misteriosas e sagradas como ritos religiosos. Também se pode ir a Essen, a cidade das máquinas, comer o pão negro de luxo, o pumpernickel, ou a Colónia, as anguille du Rhin avec pommes vertes e as delikatesseen de uma cozinha farta e cuidada.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
A cozinha alemã
Mas nem só em Munich se bebe cerveja. Bebe-se em toda a Alemanha. A cerveja é a bebida nacional. É famosíssima a de Kulmbach, e quanto a vinhos, não é menos famoso o do Rheno, de reputação universal; os vinhos de Bade, os de Mosella, do Palatinado, o vinho branco da Francónia e o vinho espumoso de Assmannhausen.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
Cozinha alemã
A Alemanha, sob o ponto de vista culinário, tem especialidades excelentes. Ela é, incontestavelmente, o país dos enchidos, da choucroute (couve fermentada que, nas províncias do sul, se come com spätzle, uma pasta mole muito agradável) e da cerveja. A cerveja tem a sua Roma em Munich e o seu S. Pedro no Hofbrauhaus, talvez a maior cervejaria da Alemanha. Da Alemanha e do mundo. Palácio em estilo renascesça. Uma escadaria monumental conduz às salas do restaurante. Um claustro. Ao centro, uma fonte sobrepujada por um leão de pedra. À roda, dois milhares de pessoas, pelo menos, comem, bebem e fazem barulho.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
A fama perturba os artistas que a alcançaram; por isso, as suas primeiras obras são frequentemente as melhores.
(Ludwig Van Beethoven)
VIA LÁCTEA
Em mim também, que descuidado vistes,
encantado e aumentando o próprio encanto,
teres notado que outras coisas canto
muito dibersas das que outrora ouvistes.
Mas amastes, sem dúvida... Portanto,
meditai nas tristezas que sentistes:
Que eu, por mim, não conheço coisas tristes,
que mais aflijam, que torturem tanto.
Quem ama inventa as penas em que vive:
E, em lugar de acalmar as penas, antes
busca novo pesar com que as avive.
Pois sabei que é por isso que assim ando:
Que é dos loucos somente e dos amantes
na maior alegria andar chorando.
(Olavo Bilac)
DA OBSCENIDADE À PORNOGRAFIA
(...)
A História aponta-nos diversas fases de decadência moral, de degradação, em todos ou em quase todos os povos.
Assírios e caldeus; egípcios e hebreus; gregos e troianos; romanos e bisantinos; europeus do Renanscimento ou Asiáticos lascivos; homens do século XVIIII ou do século XX, todas estas gentes, e muitas outras, tiveram fases mórbidas de degeneração moral sob o signo da obscenidade, da pornografia, da sensualidade - mascarada pelo culto de Astarteia ou de Vénus; eufóricas nas festas dionisíacas ou nas bacanais; poéticas nos arroubos de Safo; literárias nos contos de Decameron de Bocácio; rebelesianas no tempo do Rei-Sol; e beatlesca ou hippiesca em nossos dias, sendo de notar, contudo, que não são os jovens guedelhudos os únicos cultores da pornografia e da obscenidade do nosso tempo.
Pode dizer-se que há épocas sociais de sanidade mental em que florescem os valores morais em todos os campos, da Religião à Arte, da Polícia à Justiça, da Ciência à Caridade, do Trabalho ao Heroísmo - e há épocas de decadência sob o signo maléfico da obscenidade e da pornografia.
(...)
(In Labor, nº 286, 1970, por F. Falcão Machado)
[E nós, em 2007, que época estamos a travessar?]
IMPRESSÕES
O mar é na vidada natureza o que melhor define e mais se aproxima à vida do espírito. (Alves Mendes)
Fomos à barra. Sobre o céu cerúleo brilhava o sol como um botão enorme e cintilante. As árvores choravam o orvalho da manhã, parecendo uma fantasia de cristais rutilando à luz do sol. A alma da paisagem é a luz e nós namoramos o sol que ilude a melancolia em uns estonteios de azul e de oiro. Que ternura de sol, que maravilha de luz!
Depois de almoçarmos, seguimos até Aveiro. (…) O céu era puro, vivo o sol, a brisa fresca. Nem uma nuvem toldava o horizonte pleníssimo de sol e de luz. A aragem do mar, com os seus murmúrios rítmicos e fagueiros, tinham o supremo encanto de uma grande consolação.
(In Impressões – A vuela pluma, de Acácio Rosa. 1893)
ORAÇÃO DAS CHAVES
Vivemos, Senhor, num mundo fechado com duas voltas, fechado por milhares, por milhões de chaves.
Cada um tem as suas: as da casa, as do carro, as do escritório e as do cofre...
E como se isso não bastasse, ainda procuramos, sem cessar, uma outra chave: a do sucesso, a da felicidade, a do poder e a dos sonhos...
Vós, Senhor, que abristes os olhos aos cegos e os ouvidos aos surdos, dai-nos hoje a única chave que nos falta: a que não fecha, mas liberta, a que abre a porta da felicidade e do amor a todos os homens, a chave do Vosso Reino.
(F. Sejourné)
Fragmento do jornal d'uma senhora
Da mulher que não afaga as crianças e do homem que se esquece dos seus brios, nada do que é bom, e do que é belo devemos esperar.
(M. M.)
Fragmento do jornal d'uma senhora
A política, pelo fanatismo ou por interesses individuais, inutiliza muitos espíritos lúcidos e brilhantes, que podiam com a palavra ou com a pena tornar-se úteis à humanidade.
(. M.)
Fragmento do jornal d'uma senhora
A velhice, que se dá um trabalho infinito para tornar invisíveis as tristes devastações dos invernos que tem atravessado, assemelha-se extraordinariamente à criança muito pequena que, para esconder-se, depois de pensar muito, se mete detrás da cortina de cambraia transparente da janela e diz, cheia de entusiasmo: - Aonde estou eu? Aposto que ninguém me encontra!
(M. M.)
Fragmento do jornal d'uma senhora
Há quem afirme que ninguém se conhece a si próprio: que são os nossos amigos e os que vivem mais intimamente ligados connosco os competentes para nos julgarem. Eu por mim penso o contrário e não creio que fosse de difícil acesso a porta do Templo de Delfos, que tinha por legenda - conhece-te e ti mesmo antes de entrar aqui.
Pois se nós que vivemos na intimidade do nosso pensamento, espelho fiel da nossa alma, não conhecermos os nossos defeitos e as nossas virtudes, como podem os outros julgar-nos? Eles que apenas podem apreciar as nossas manifestações exteriores ouvindo-nos e vendo-nos? E se não nos conhecemos, com que direitos afirmamos que os nossos olhos e os nossos ouvidos estão perfeitamente despreocupados quando julgamos os outros? Que o afecto ou a malevolência não alteram em nós as duas faculdades de ver e de julgar?
Aonde estaria a responsabilidade da nossa consciência se não nos conhecêssemos?
(M. M.)
Fragmento do jornal d'uma senhora
O falador é como a cigarra que morre à força de cantar: a cigarra canta sem saber o que faz, o falador fala sem saber o que diz.
(M.M.)
Fragmento do Jornal d'uma senhora
As mulheres, na discussão, podem comparar-se às moscas sobre o doce: quanto mais procuram desviá-las, com maior tenacidade eslas voltam.
(M.M.)
Ninguém é suficientemente competente para governar outras pessoas sem o seu consentimento.
(Abraham Lincoln)
RETRATO D'UMA PORTUGUESA
Branco-mate o tom da cor.
Pé airoso, breve, estreito.
A boca - botão em flor;
e a linha curva do peito!...
Sorrisos abrindo em pérolas.
distinção, graça no porte.
Pupilas como relâmpagos,
que podem dar vida ou morte!
N'essa forma sobre-humana,
que mais seduz, mais domina?
A carne, porção mundana?
O ideal, porção divina?!
Tomam como orgulho indómito
seu olhar fascinador.
Fascina também e é tímida
uma estrela do Senhor!
No grande baile sorria
mais triste do que ditosa;
pois de tal modo estaria
se acaso fosse orgulhosa!
Como d'esse branco-pálido
ressaem as negras comas?
Caminha, formosa única,
cercada de luz e aromas!
São tantos os teus poderes,
triunfadora invencível,
que nas outras mulheres
a própria inveja é possível!
Surgiste real e etérea!
N'estes dias positivos,
Deus ressuscitou romântico
ao sol dos teus olhos vivos!
(Bulhão Pato, 1885)
Os castelhanos celebram muito as mulheres caseiras que tratam do serviço de suas casas. Verdadeiramente eles as festejarão tanto, porque colhem lá delas tão pouca novidade, que vem a ser novidade o achar lá uma destas mulheres.
(In Carta de guia de casados, D. Francisco Manuel de Melo)
Só as mulheres e os médicos sabem como a mentira é necessária e benéfica ao homem.
(Anatole France)
BONDADE
Assim que nascemos, dependemos dos cuidados e do carinho dos nossos pais. Mais tarde, na vida, quando adoecemos e ficamos velhos, dependemos de novo da bondade dos outros. Dependendo tanto da bondade alheia no princípio e fim da nossa vida, como podemos, no meio, justificar, esquecer a bondade para com os outros?
Dalai Lama
COZINHA ITALIANA - IX
E não falamos de sopas como a Busega e a Mille fanti, e outros pitéus como o Gnocchi romano, o Stucchi genovese, o zampino, o osso-boccone, os brasccioli milanesi, etc. Não falamos dos doces. Não falamos dos licores.
A Itália tem uma culinária. Não admira. Vem dos romanos onde ainda são lembrados os Apicius e que teve entre os seus grandes generais Luculus. Este quando comia em casa dizia ao cozinheiro: «Luculus ceia em casa de Luculus» o que queria dizer traduzindo em vulgar: vê lá como te portas que o patrão hoje come cá...
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA ITALIANA - VIII
O sul da Itália é a terra do legume e da fruta. A (?) oriente influencia a sua cozinha. Azeite e tomate são a base dos seus condimentos. A minestra é usual. Peixe abundantíssimo. Sardinhas à beccaficu, recheadas, o pesce-spada a ghiotta, frituras de sciabacheddu, o diabo. Depois um vinhito Marsala, depois um Moscati de Siracusa, uma Ala de Casteldaccia, um vinho do Etna e um carro da Cruz Vermelha.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA ITALIANA - VII
Também em Livorno o seu cacciucco sopa de peixe, em Roma terra-mãe do cristianismo o battuto, os carciofi alla giudia (alcachofras à judia), o baccalá in guazzetto, as tripas à romana, o assado d'abbacchio são excelentes pratos que acompanham magníficos vinhos.
O napolitano, que nós figuramos sempre de lazzaroni a comer macarrão, tem pratos de uma riqueza e variedade que espanta. Diz um tratadista, Gargantua deve ter nascido na Sicília. Não admira! Querem maior fonte de apetite que o ar fino da montanha e a brisa iodada do Mediterrâneo?
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA ITALIANA - VI
Em Veneza a clássica sopa risi e bisi, feita de arroz e ervilhas, ou risi e lagunega (arroz e salsichas) ou ainda risi e peoci (arroz e mariscos) pois que o veneziano ama o arroz. Na Ligúria o minestrone col pesto sopa de azeite, queijo, alho e legumes, em Bolonha os seus enchidos, a mortadela e o salame que todo o mundo conhece e maiso zapone de módene (massa de porco recheada), os cotechini (espécie de chouriço) e as salsichas de Ferrara e Parma.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA ITALIANA - V
Grandes pratos? Mas são um nunca acabar.
A fondua piemontesa! Prato impossível de fazer fora de Itália. Difícil? Não. Um creme obtido a fogo, doce de um queijo do Vale de Aosta chamado fontina, com boa manteiga. A cobrir a superfície rodelas finas de trufas brancas do Piemonte.
Da Lombardia é o risotto alla milanese de que falámos, de Bergamo ou Brescia a polenta, sêmola, manteiga, queijo e tomate; na região dos Lagos, a truta, a carpa feitas à moda do país e os belos queijos Gorgonzola, Stracchino, de Bel Paese e Lodigiano.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA ITALIANA - IV
«Come bem e simples e terás vida longa.»
Este provérbio italiano tem na Itália plena aplicação. O italiano come e bebe bem e coisas boas sabiamente feitas. O francês e o italiano são povos de grandes cozinheiros. Boa carne, bom peixe, bons legumes e frutos e bom vinho. Boa terra fortemente soalhada, na sua maioria, grande mar, como não há-de ser uma espécie de paraíso terreal!? O homem completou a obra da criação ideando e compondo maravilhas e apetites. Grandes pratos? Mas são um nunca acabar.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA ITALIANA - III
Especialidade bem italiana é o rizotto, arroz solto com parmesão. Mas o arroz é corado a açafrão, não tem molho, porque a substância do caldo de carne o embebeu todo sem o pegar. Edouard de Pomiane faz deste prato uma descrição que enleva mesmo quem não seja gourmet. O arroz vem solto, montanha de bagos de ouro. Ao alto, o queijo parmesão rapado, como se fosse neve, coroando-a. O garfo vai e a neve funde-se, desabando pelas vertentes e cai no estômago com uma sensação gustativa, inegualável.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA ITALIANA - II
Também na Itália o pão é bom. Uma variedade foi até crismada por Napoleão: «les petites bâtons de Turin».
Do vinho não se fala. Devemos lembrar que ela possui entre os seus vinhos brancos, o de Capri e o Falerno; o Zucco, e o San Michele, o Lacryma-Christi, o Frascati, o Sangiovese, o Lambrusco, o Dolcetto, Barolo, Barbaresco, o Gattinara, etc., dos tintos e brancos; os Moscatos, Malvasia, Lipari, Vino Santo, entre os generosos; o Arti spumante, Picoi, Bosco, Gancia, entre os espumantes. Belos vinhos saborosos, perfumados, onde há todos os tons de cor, todos os sabores, toda a magia de uma terra de alegria e maravilha.
Não é a Itália ainda o país do vermouth?
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
FRAGMENTO DO JORNAL D'UMA SENHORA - I
A vida, oceano insondável, que, ora sereno, ora revolto, ora em tormenta, enche de alegrias, de dúvidas ou de martírios o nosso espírito, desgraçado tripulante de uma barca desconjuntada a que chamamos - o corpo humano.
(M. M.)
COZINHA ITALIANA - I
A Itália é um país de gastrónomos, de velhas e gloriosas tradições. (Quem pode) esquecer a pátria das massas alimentícias, muito loiras, amanteigadas, fundindo-se na boca, polvilhadas de queijo saborosíssimo ou embebidas em molhos deliciosos? Encontram-se em toda a parte, dos Alpes à Sicília.
E há-as compridas como a zita, macarôni, bucatini, mezzani, perciatelli, vermicelloni, spaghetti, capellini; largas como a lasanha, lasagnette, fettucie, fresine, tagliarelli, passarelle, linguine; curtas como a paccheri, rigatoni, cannaroni, maltagliati, canelloni, paternostri, stelline, occhi de pernice, punte d'ago, acini di pepe, etc., não faltando para todas as formas e feitios haver as em forma de laços, de hélices, de búzio, de pevide, de bagos de arroz, lisas e emaranhadas. E não contamos com as da Calábria as fusilli, a ricci di donna, a pizzicotte, etc.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
PRÉMIOS IgNobel - VIII
Química
António Mulet, José Javier Benedito e José Bon (Universidade de Valência) e Cármen Rosselló (Universidade de Palma de Maiorca) demonstraram que a velocidade de ultrassons no queijo Cheddar varia com a temperatura. Notável contributo para melhorar os níveis do controlo de qualidade na indústria alimentar.
(Como diria o outro:) Então é assim - A partir de hoje vamos exigir que esta informação seja incluída nos rótulos dos produtos alimentares, muito particularmente nos do queijo da Serra que, aqui para nós, é sempre uma delícia... tanto que se come não quando apetece, mas quando aparece!
(dos jornais)
PRÉMIOS IgNobel - VIII
Química
António Mulet, José Javier Benedito e José Bon (Universidade de Valência) e Cármen Rosselló (Universidade de Palma de Maiorca) demonstraram que a velocidade de ultrassons no queijo Cheddar varia com a temperatura. Notável contributo para melhorar os níveis do controlo de qualidade ma indústria alimentar.
(Como diria o outro:)Então é assim - A partir de hoje vamos exigir que esta informação seja incluída nos rótulos dos produtos alimentares, muito particularmente nos do queijo da Serra que, aqui para nós, é sempre uma delícia... tanto que se come não quando apetece, mas quando aparece!
(dos jornais)
PRÉMIOS IgNobel - VII
Medicina
O trabalho Paragem de soluços incuráveis com uma mensagem rectal digital foi atribuída a quatro investigadores - a Francis Fesmire (Universidade de Yenessee) que foi o primeiro a divulgar o relatório, logo seguido de Harry Bassan, Majed Odeh e Arie Oliven (do israelita Centro Bnai Zion).
E que fizeram para merecer este prémio? Como o título indicia, só foi possível acabar com os soluços em pacientes com a dita massagem, após todas as tentativas feitas com os meios conhecidos terem fracassado. Portanto, a partir de hoje já sabe como acabar radicalmente com os soluços mais persistentes. Mas se tiver que o fazer num lugar público, então, comece a imaginar o que vai ouvir...
(dos jornais)
PRÉMIO IgNobel - VI
Biologia
Dois cientistas da Universidade Agrícola de Wagenningen (Holanda) - Bart Konols e Ruurd Jong - chegaram à conclusão que a fêmea do mosquito Anopheles gambiae (causadora da malária) são atraídos pelo chulé dos pés dos humanos e pelo odor do queijo Limburguer, um queijo de vaca curado que fede, ó se fede, que se farta. Claro que o estudo tem uma aplicabilidade interessante: poder contribuir para a substituição de pesticidas por armadilhas onde caiam as indefesas Anopheles...
Quanto a queijos, e dado o clima em vigor, demos preferência aos produtos nacionais.
(dos jornais)
PRÉMIOS IgNobel - V
Física
O prémio deste ano coube aos investigadores da Universidade Pierre e Marie Curie (Paris), Basile Audoly e Sebastien Neukirch que conseguiram demostrar porque o esparguete seco, quando se dobra, não parte em dois, mas sim em 3-4 fragmentos, tendencialmente. Ora aqui está uma experiência que qualquer um pode realizar - basta ter o dito esparguete e que seja capaz de aplicar a força necessária e suficiente para o partir.
Quanto ao modelo mecânico que explica este fenómeno, bem é um tanto complicado: fica para melhor ocasião...
(dos jornais)
PRÉMIOS IgNobel - IV
Literatura
Desengane-se quem pensa que falar, ou escrever, "caro" transmite aos outros uma ideia de inteligência. Puro engano, como o mostrou Daniel Oppenheimer (Universidade de Princeton) no trabalho Consequências de vernáculo erudito utilizado a despeito da necessidade: problemas da utilização desnecessária de palavras longas.
[Será que a tese do autor também se aplica aos títulos?]
PRÉMIOS IgNobel - III
Matemática
Nesta área tão "esdrúxula" para tantos dos nossos alunos, surgiram os trabalhos de dois investigadores (Piers Barnes e Nic Svenson, da Organização de Ciência e Investigação da Commonweath Australiana) que após aturados estudos concluíram qual o número de fotografias que é necessário tirar para assegurar que todos os fotografados ficam com os olhos abertos. Consideraram que o número médio de piscadelas/minuto é de 10, que a duração de cada uma é de 250 milissegundos e que o tempo de abertura da câmara (em dia ensolarado) é de 8 milissegundos) donde, após a entrada em acção da estatística, ficaram aptos a aconselhar que para um grupo de 30 pessoas devem ser tiradas 15 fotografias. Mas atenção: nestas circunstâncias a probabilidade de êxito é de 99% !
Se o céu estiver nublado, vá às 30. Neste caso, se estiver num grupo destes, recomenda-se paciência, muita paciência...
(dos jornais)
PRÉMIOS IgNobel - II
Acústica
Nesta categoria foram três os premiados - Lynn Halpern, James Hillenbrand e Randolph Blake - pelo seu trabalho Psicoacústica de um som irritante. E, claro que se está mesmo a ver qual é o som mais irritante: exactamente esse, o das unhas a raspar num quadro de ardósia.
A experiência contou com 16 voluntários, chegou a conclusões sobre sons de altas frequências e outras coisas interessantes, mas parece que não ficou devidamente esclarecido motivo porque causam tamanha irritação.
(dos jornais)
PRÉMIOS IgNobel - I
Nutrição
Os vencedores deste ano, Wasmia Al-Houty (Univ. do Kuwait) e Faten Al Mussalam (da Autoridade Ambiental do Kuwait), mostraram que os besouros Scarabaeus cristatus preferem fezes mais fluidas, como as do cavalo, a outras mais consistentes como as da raposa, ovelha, camelo ou cão. Concluíram que a evolução de algumas espécies esteve ligada à coprofagia, coisa raramente praticada pelos humanos.
(dos jornais)
Ainda a BICA...
Chegou, enfim, uma opinião:
Ainda hoje se discute de onde vem o termo bica para o café expresso. Primeiro pensamento: "deve ser o nome de uma máquina, tipo Cimbalino". Outros preferem que o verdadeiro significado de BICA é Beba Isto Com Açúcar (BICA), slogan de uma marca de café, que acabou por ficar até hoje. Outra explicação, e talvez a mais acertada, diz que: "A origem verdadeira da palavra BICA vem da própria expressão. Bica, em português, é o tubo de saída da água de uma fonte. Ora a máquina expresso tem o manípulo de saída do café em forma de uma ou duas "bicas", ao contrário da máquina de filtro que possuía uma torneira. Assim, em Lisboa, os melhores cafés tinham café de filtro, da torneira, e café expresso, da bica."
Um abraço,
JTS
OLHOS PRETOS
Teus olhos são mais escuros
do que a noite mais fechada,
e apesar de tanto escruro...
sem eles não vejo nada!
(J. Simões Dias)
OPINIÃO
Fui sempre um pedaço actriz, um pedaço dona de casa, um pedaço mãe.
Nunca gostei que o facto de ser actriz me impedisse de ser o outro lado.
Acompanhei o mais que pude os meus seis filhos.
(Eunice Moñoz, in Nova Gente)
Não posso estar mais em desacordo. Quem foi e é isto, e do que lhe conhecemos como actriz, só o pode ter sido em PLENITUDE.
QUARTILHO
"Com uma galinha inteira me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco um quartilho!"
(In Contos, de Eça de Queiroz)
A música pode, como a Teologia, sossegar o ânimo e alegrá-lo.
(In Duma carta a Ludwig Senfl, Martinho Lutero, 1530)
A Délia
Um ano já correu, foi hoje mesmo,
por estas horas, Délia, neste instante
que nasceu nosso amor - hoje tão doce,
e tão amargo já, que tantas dores
tantas lágrimas, Délia, tem custado
(...)
Almeida Garrett
A equídeo objecto de dádiva, não é possível fazer observação odontológica.
(In Provérvios para gente culta, que estão a circular na net.)
PRESUNTO SABOROSO
(ADVERTÊNCIA: Lá que deve ser uma bomba calórica, lá isso deve...)
Limpa-se o presunto e corta-se em fatias não muito grossas.
Num tacho dispõem-se lascas de toucinho e as fatias de presunto juntamente com banha de porco, louro, salsa, cravinho da Índia (e sal, se necessário). Vai a cozer, sempre em lume brando. Depois de estar cozido cobre-se com miolo de pão amassado com gemas de ovo e manteiga. Vai ao forno a corar.
(Bom apetite e ... boa digestão)
Estou pronto para enfrentar o meu Criador. Se o meu Criador está ou não preparado para a árdua prova de me enfrentar, esse é outro assunto.
(Winston Churchill, na véspera do 75º aniversário)
Dos inqualificáveis directos durante os incêndios:
- As chamas estavam a arder (TVI)
- Está a arder uma vasta área de pinhal de eucaliptos (RTP)
Nada podeis contra o amor,
contra a dor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!
(Eugénio de Andrade)
A COZINHA FRANCESA
Diz-se que um rei da Polónia, Wenceslau VI, mandava temperar e assar o cozinheiro que decurasse um prato da sua real mesa.Punia assim o atentado contra a culinária e a Majestade.
Pois se fosse em Paris Wenceslau VI não encontraria um mau mestre da sua arte, e por isso jamais teria ocasião de comer cozinheiro assado.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
A COZINHA FRANCESA
No Béarn, os naturais, contam a seguinte história.
Um notário rotundo viajou a manhã toda por montes e vales. Chega estafado a um restaurante célebre vinte láguas em redor. Chega, e vê ao lume a corar uma soberba perua. Chama o hoteleiro e dis-lhe: «Ponha a mesa para quatro pessoas». Mesa posta, perua na mesa e o nosso bom notário a trinchar. «As asas - exclamava ele cortando, - são para o meu filho mais velho; as pernas - continuava - são para a minha filha mais nova; o peito esse é para a minha mulher e agora estas migalhas são para mim». E distribuía a perua inteira pelos quatro pratos. E o estalajadeiro admirado por não ver ninguém chegar.
«Somente... - dizia o maganão, piscando maliciosamente o olho ao dono do hotel, que o contemplava surpreso, - somente como eu sou celibatário... - e vasava o conteúdo dos três pratos no seu - ... como eu sou celibatário...».
E tranquilamente comeu tudo.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
A COZINHA FRANCESA
Na Provença, a Bouillabaisse, a Brandade, o Aïoli, e a Bourride; na Borgonha, os Escargots, o peito de vitela en meurette, o jambom de morvan à la créme; na Bretanha, terra de bom peixe, e do porco, animal rei, o bom salmão, as fresquíssimas enguias, e o gigot bretone; na Saboia, mas por Deus! em toda a França se come bem, como em parte nenhuma do mundo; em Paris, principalmente, Paris, a que os bons fiéis gastrónomos chamam a Roma da gastronomia, Paris, onde a Marguery fez uma fortuna só por criar o molho de ostras e ter deitado vinho branco no linguado...
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
Ao crescer descobriste que já defendeste mentiras, te enganaste a ti mesmo ou sofreste por ninharias. Se és um bom combatente, não te culparás por isso, mas também não desejarás que os teus erros se repitam.
(Pablo Neruda)
A COZINHA FRANCESA
Em França, a culinária e a gastronomia não são, como entre nós, motivo de riso mas de entranhada devoção. (...) Porque sem culinária todo o turismo é inútil.
Escolas de culinária dão a norma a seguir, e por isso, em qualquer parte do país, é aprazível comer.
No Perigord, a trufa, o paté de fois e o confit; no Anjou, o Boudim e Beurre blanc; na Normandia, as Tripas à la mode de Caen, o seu Camambert, o Petit Suice e o Pont l'Evêque, queijos de nome mundial; na Alsácia, as suas quarenta e duas espécies de pâtés, entre elas a de fois-gras e os seus Kougelhopf. São maravilhas regionais.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
DO BEM FALAR, DO BEM ESCREVER...
Ontem, pelas 18 h, viajava tranquilamente sintonizando a RFM (boa música, boa disposição) quando começo a ouvir no noticiário qualquer coisa como
«Uma tempestade no Pacífico Sul está a fustigar as costas da Guatemala e da Nicarágua.»
Estando concentrado a conduzir posso não ter ouvido corectamente, pelo que aqui deixo as minhas desculpas.
Se ouvi bem... bem, Nicarágua e Guatemala ainda não mudaram de localização (tanto quanto se sabe) ... ou o Equador parece não ter ido dar uma voltinha!
Depois de uns dias dedicados ao retempero do corpo e da alma, partilho um recolhido no Alentejo profundo, região inigualável na planura do território, na dolência dos seus cantares, nas noites longas de um silêncio calmante, na gentil doçura das suas gentes, nos vinhos redondos que "se mastigam e enchem o estômago", nos comeres simples e delicados a que os sublimes aromas do campo emprestam forte cunho identitário, na história que a cada canto se pode ler... Bem, o melhor é mesmo voltar mais vezes!
Pouco em paz, muito se faz.
A COZINHA FRANCESA
E a tão alto grau em França subiu a Arte, que maravilhosas criações culinárias eternizam o nome dos grandes esscritores, dos seus artistas, dos grandes generais, dos grandes políticos. Quem não conhece o Chareaubriand, bife saboroso, o linguado à Colbert, costeletas à Murillo, franga cevada à Maintenon, à Adelina Patti, ou à Tayllerand, o pêssego Melba, os ovos Mayerber, a pescada à Réjane, todos os pratos, todos os nomes, todas as épocas, todas as artes, reis e plebeus, actrizes e príncipes da igreja, pintores e jornalistas, músicos e cozinheiros. Até à consagração culinária não faltaram nem o nome da Bela Otero, nem os Montgolfier, uma linda bailarina e os bravos percursores da aviação.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
A COZINHA FRANCESA
Brillat-Savarin, grande francês não disse que a descoberta de uma nova receita culinária valia mais, era mais útil à humanidade, do que a descoberta de um novo astro nos céus?
Não têm os franceses em Vatel uma lenda imortal? Um cozinheiro que se atravessa com a própria espada por não ter chegado a tempo o peixe que vinha regalar os seus senhores? Que outro país criou, para tal, mais bela coisa?
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA FRANCESA
Toda a gente conhece os seus vinhos, os primeiros do mundo em qualidade e em quantidade. Bordéus e Borgonha, com o seu Chablis à cabeça, os Châteaux, os vinhos da Alsácia, muitos de nome alemão, os Champagnes, os Beaujolais; os Côtes du Rhône, o Juraçon, grande irmão dos bons vinhos bascos, os irrequietos vinhos provençais, o Muscadet bretão, e até mesmo esse Medoc vulgar que todos bebem.
Onde há bom vinho não p0de haver má gastronomia, e assim sucede em França. Porquê? Porque em França a arte de cozinha é uma Arte, a nona arte. Todos lhe rendem culto, todos trabalham por enriquecê-la.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
COZINHA FRANCESA
A cozinha francesa tem grandes e nobres tradições, desde esse Taillavant até aos gastrólatras dos nossos dias. Depois a França é um país culinário rico, da Gasconha e do Béarn à Bretanha e daí à Flandres, da Flandres à Álsácia, desta à Provença e a Nice e marginando o Mediterrâneo ao Roussillon para voltar pelos Pirenéus à Gasconha e ao peixe da Biscaia.
(In Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
AMÁLIA RODRIGUES
Num almoço de homenagem a Nascimento Fernandes, após os discursos, tomou a palavra:
- Como não tenho jeito para falar, vou dizer uns versos que acabei de fazer
Dizem-me a todo o momento
que o Manuel do Nascimento
teve muitas mulheres belas.
Minh'alma em desgosto arde
de ter nascido tão tarde
e não fazer parte delas...
Uma daquelas que se supõe que já não acontecem. Ontem, na RTP 2, podia lêr-se num quadro classificativo de uma prova de ciclismo que determinado corredor é da equipa da Caixa de Crédito Agrícula de...
Não há maneira...
Ah! E se os papás começarem a dar palpites sobre as classificações dos professores, daqui a uma geração ainda será muito pior. Basta pensar nos do tipo que residiam em Guimarães ainda não há muito tempo...
Mais um contributo:
- Não é "Trinta e um dia", mas Trinta e um dias.
- Não é "Ela é uma linda bebé", mas Ela é um lindo bebé.
- Não é "Tenho ouvisto dizer que...", mas Tenho ouvido dizer que...
- Não é "Isto é coisas simples", mas Isto são coisas simples.
- Não é "O António absteu-se de...", mas O António absteve-se de...
OVO
(Às primeiras mulheres francesas chegadas ao Brasil) devemos-lhes, com certeza, a primeira aliança da cozinha francesa com a indígena, já que aqui estiveram na qualidade de donas de casa. De certo, haveriam de preparar a galinha - a que Henrique IV queria ver na panela do burguês todos os domingos - aclimatada pelos portugueses, com farinhas de mandioca e milho aprendidas dos aborígenes. E hão-de ter preparado, com seus ovos, as primeiras omelettes baveuses, já que os silvícolas não comiam os "arrinham-ropiá", tidos por venenosos.
"Ficavam muito admirados de nos ver sorvê-los mas ainda diziam que por falta de paciência para deixá-los chocar praticávamos a gulodice de comer uma galinha inteira num ovo".
(In Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo)
CORPO DE ESPERANÇA
Começaram por ti todos os versos...
... e um dia as aves voarão o céu até aos teus olhos,
as crianças hão-de pisar teu corpo de alegria
com seus risos, seus tácitos encontros com o invisível
e o seu secreto esquecimento.
Num chão de cousas desapercebidas
terão passado sobre ti os reinos, as filosofias e os namorados,
e tu repousas, nua, no coração do Silêncio,
como uma estrela dentro do céu.
GUERRA JUNQUEIRO
Do seu exame de Matemática conta que o examinador lhe perguntou o que era um «coseno».
Não sabendo, embatucou e o examinador foi implacável:
- Pelo que vejo, não sabe o que é um coseno. Estou satisfeito. Não sabe o que é um coseno, não preciso de mais nada.
E reprovou-o.
Anos mais tarde, Junqueiro dizia ao Dr. Augusto de Castro:
- Olha que já lá vão 40 anos e ainda hoje não sei o que é um coseno.
(In Anedotas e episódios da vida de pessoas célebres, de Lourenço Rodriges, adapt.)
O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
Do Oriente a Ocidente jaz, fitando,
e toldam-lhe românticos cabelos
olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
o direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
este diz Inglaterra onde, afastado,
a mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita com o olhar esfíngico e fatal
o Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
BICA
Diz-se que quando "A Brasileira", em Lisboa, começou a servir os primeiros expressos, os clientes reagiram negativamente porque os consideraram muitos amargos.
O proprietário para solucionar a questão resolveu afixar o aviso:
Bebam Isto Com Açúcar o que acabou por dar BICA.
E, pelos vistos, pegou. De tal modo que quando hoje queremos beber uma chávena de tão estimulante bebida pedimos, simplesmente, uma bica!
Será verdade?
O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma palavra. Antes um silêncio.
O seu sentido é uma promessa de sentido.
(in Antologia poética, Publ. Dom Quixote)
AMIGAS
Torno às amigas, e reparo muito que em nosso bom português, com muita razão, de amigas e inimigas quase não vai diferença. Sou tão ruim, que creio que muito mais dano fizeram amigas no mundo, que inimigas. E assim costumo eu dizer, que aos homens perdem seus inimigos, e às mulheres suas amigas.
Tenha-se que devem ser as melhores; e estas tão faladas com porfia; basta que seja sem artifício. E esta tal amizade assento eu entre especialidade e cumprimento. Isto com as mais amigas.
(In Carta de guia de casados, de D. Francisco Manuel de Melo)
Como portar-se à mesa...
... as pessoas de bom-tom?
Tais eram as recomendações, por volta der 1538, segundo o Mestre e o Repetidor encarregados de polir o futuro Felipe II...
(Devem pôr a mesa, enquanto que) outro coloca os copos.
O que é isto? Como os trazes tão manchados? Volta à cozinha para que os esfreguem e sequem bem, até torná-los resplandecentes (...) limpa esses copos com areia, água e folha de figueira ou de urtigas (...)
- Rapazes, lavem as mãos e a cara. Ah, que toalha é esta? Como se lavaram os que com ela se enxugaram? Rápido, tragam outra!... Que cada um saque da sua faca e limpe seu pão, caso lhe grudou, ao cozinhar, carvão ou cinza. Bendiga a mesa o refeitoreiro da semana.
O discípulo odebece. O Mestre continua.
- Sentem-se separados uns dos outros, para que não estejam apertados já que há lugar. Ninguém toque seu chapéu enquanto comemos, para que não caia algum cabelo nos pratos. Não deixem nada no copo.
(In Comidas, meu santo, de Gulherme Figueiredo)
Recordo uma tarde como qualquer
outra, de leve luz. De luz clara ainda e
serena; verdadeira pedra.
Uma tarde, enfim, de poucas palavras
- em Salamanca - em frente de San Esteban,
quando o meu coração
sentiu a felicidade que aqui sentiu talvez
num certo instante Fray Luis.
(In Cânticos da fronteira)
No banquete de Trimalquião
Trouxeram finalmente uns aperitivos muito elegantes, pois todos se encontravam já à mesa, a não ser Trimalquião, e só ele, para quem, se tinha reservado o lugar à cabeça, segundo o novo costume. De facto, na bandeja de servir os aperitivos, havia um burrito de bronze coríntio com duplo alforge; num dos lados levava azeitonas verdes, do outro pretas. Recobriam o burrito dois pratos, em cujos bordos tinham sido gravados o nome de Trimalquião e o peso da prata. Havia também umas pontezitas soldadas entre si que suportavam arganazes polvilhados com mel e dormideira. Serviram ainda salsichas acabadas de assar, numa pequena grelha de prata, debaixo da qual se encontravam ameixas de Damasco e grãos de romã.
(In Satyricon, de Petrónio)
Lengalenga
Arre burrinho
p'ra Azeitão
carregadinho
de feijão
para o senhor
Capitão.
Capitão
não está em casa
vai a carga
para o chão.
Arre burrinho
p'ra Azeitão
carregadinho
de feijão
para o senhor
Capitão.
O senhor
Capitão
não está
a bordo
dum navio
dá-lhe o vento
dá-lhe o frio
ai, que frio
ai, que frio.
Tanta gente à procura da felicidade por montes e vales imaginários, onde um levanta uma choça e outro um palácio - que logo mudam, ainda a obra em meio, palácio daqui, choça dali - para outra vez largarem à descoberta, de sonho em sonho, no alcance da pátria da ventura, que escorrega e foge debaixo dos pés... E, desta vez, peregrinos como somos e pobrezinhos, até sem lira no alforge, chegámos à fronteira; chegámos-lhe; lá está ela, a felicidade...
Dar. Fazer bem. Lá está ela, a luzir entre flores!
(Júlio César Machado)
Se queres saber quanto és indispensável,
experimenta mergulhar um dedo num balde de água
e observa o tamanho do buraco que deixou.
(Anónimo)
BENEFICÊNCIA
Este fim-de-semana ouvi duas vezes, em programas de TV - numa novela, num programa de informação - dizerem beneficiência em vez de benificência.
... elogio do vinho (conclusão)
Asoto começa a entender que a embriaguês é perigosa.
Daí em diante só beberá até alegrar-se. Gláucias retruca:
- A alegria é a porta da embriaguês.
E Abstêmio:
- Enquanto o vinho estiver no copo, farás o que quiseres; quando o tiveres no corpo, ele fará de ti o que quiser.
(In Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo)
... ou quando o excesso é pernicioso!
Gláucias retrata então o vício da embriaguez:
- Embriagar-se é perder o uso da razão, do juízo, do arbítrio, e também dos sentidos; é converter-se o homem em besta; em pedra, que ainda é menos. O que daí se segue é fácil de concluir (embora eu nunca tenha visto bêbados): falar sem saber de quê; descobrir o segredo que te pediram que guardasses; revelar negócios até pôr em risco tua pessoa, os teus e a Pátria; não fazer diferença entre amigo e inimigo, nem sequer entre a mulher e a mãe. Zangas, disputas, inimizades, contendas, pancadas, ferimentos e até mortes.
- E mesmo sem ferro nem sangue, muitos morrem de bebedeira.
(In Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo)
Elogio do vinho (cont.)
E vai contando: primeiro beberam em copos de vidro mas, como se quebravam, na alegria da festa, trouxeram outros, de prata. E dentro deles, deitaram molhos, caldos, leite e até manteiga. Abstêmio está horrorizado. Trincongio narra que uns metiam as mãos sujas nos copos dos outros, lançavam dentro cascas de nozes, de ovos, de maçãs, e caroços de azeitonas e de ameixas. Abstêmio sente-se tão repugnado que quer retirar-se.
- Que bebeste?
- Que havíamos de beber? Vinho.
- Melhor diríeis: bebestes vosso próprio entendimento.
(In Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo)
ELOGIO DO VINHO
(...) Asoto faz o elogio do vinho:
- Sentamo-nos seberos e tristes; bendissemos a mesa em quietude e silêncio; cada qual sacou de sua faca e, mais que convidados, parecíamos forçados, tal a nossa fleugma e frouxidão. O vinho não se esquentara ainda nos cascos. Um colocou o guardanapo no ombro, outro no peito, este estendeu parte da toalha nos joelhos, aquele tomou o pão, olhou-o, revirou-o, limpou-lhe os carvões e cinzas. Alguns começaram a ceia pela salada, outros pela carne de vaca salgada para despertar o gosto e a sede ao paladar adormecido. O primeiro copo foi de cerveja, cimento fresco para o ardor do vinho. Afinal, agarraram o sagrado licor, primeiro em copos pequenos.
E rercorda: o dono da casa mandou trazer copos grandes e se danaram todos a beber.
- E então começamos a conversar, depois nos aquecemos, e já tudo era alegria e riso descompassado! Oh, noites e ceias felizes! Brindamos uns aos outros, correspondendo-nos, porque não era ocasião aquela de desfeitear um companheiro!
(In Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo)
As árvores interrogam-se
em silêncio
neste lugar de ausências
Esta noite
dormirás sem demónios
sem sonhos maus
O mar chegará de madrugada
Pressinto seu trotar sereno
no brilho do teu olhar
Amanhã
quando acordares
que dirás daquilo que resta de mim?
(In Cánticos de la frontera - Cânticos da fronteira. Ed.: Trilce Ediciones)
OPINIÃO DE UM MANDARIM
Cournonsky e Marcel Rouff contam na sua France gastronómique que um mandarim chinês em Cantão, levantando a sua taça para brindar à França e à China, dizia: «Bebo aos dois povos mais civilizados da terra; aos únicos que inventaram o que de melhor resume todoa a civilização: uma urbanidade e uma cozinha.»
E concluíam que a afirmação do mandarimnão podia ser posta em dúvida ...
( in Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
Ninguém pode conceber tão bem uma coisa e fazê-la sua quando a aprende de um outro, em vez de a inventtar ele próprio.
DO BEM FALAR, DO BEM ESCREVER...
Na esperança de que este texto possa contribuir para a defesa da bela língua portuguesa.
CCD-PORTUGUÊS: terceira língua europeia e a sexta mundial "frantuguês".
ex-PR a falar "portunhol"
Valha-nos o Museu de Língua Portuguesa de São Paulo!
www.estacaodaluz.org.br
Já agora que regressei à minha base belga e não volto a outro "planeta" aqui dos arredores senão quinta-feira, vou entrar na polémica dos emigrantes portugueses de França, Luxemburgo, Bélgica e Suíça que, quando de férias em Portugal, falam francês. Melhor dizendo, falam "frantuguês". Já há tempos atrás - logo nos inícios do PortugalClub - aflorei este assunto, o que me valeu toda a espécie de "gentilezas" por parte de quem se sentiu atingido, mas não quis dar o braço a torcer - são raros aqueles que têm a coragem de o fazer relativamente a este ponto sensível que por um lado querem encobrir, mas por outro lado ostentam.
Quando digo "frantuguês" refiro-me a uma espécie de dialecto que mete palavras francesas aportuguesadas e palavras portuguesas, às vezes afrancesadas, tudo isto com um sotaque "nem carne, nem peixe". Não o fazem porque os "filhos" falam francês na escola e com os amigos, mas sim por "petulância", por estarem convencidos de que assim marcam uma certa "diferença", "marca de superioridade" porque se trata de francês. E nós sabemos todos como os Franceses (sobretudo os de Paris) se julgam superiores a qualquer outro povo, como estão convencidos de que a França é o "umbigo" do mundo - isto não é de hoje, já Estrabão o referiu na sua "Geografia". E em todos os países de cultura francófona há esse complexo de superioridade.
Por outro lado, se os filhos não sabem falar português, é porque também não se falava português em casa, visto que os pais preferiam treinar-se a falar "frantuguês" para fazer boa figura em Portugal. Não conseguem, infelizmente, vislumbrar a realidade - que é fazerem uma triste figura, além de terem privado os seus filhos de uma mais-valia, que é aprendizagem de uma língua que, quer se queira quer não, é a terceira língua europeia e a sexta mundial mais falada no mundo. Enquanto que a língua francesa não passa da sexta e décima, respectivamente. Mas, mais espantoso ainda é o caso dos Portugueses de segunda e terceira geração do Luxemburgo, que têm um grande orgulho em falar luxemburguês. Mesmo que vejam, ou melhor ouçam alguém falar português, fingem que não percebem e falam com esse alguém em francês, visto que é a língua geralmente usada pelos estrangeiros. Se o francês, embora num lugar bem atrás do português, é todavia uma língua de grande importância cultural, o luxemburguês não é mais do que um dialecto de origem germânica, tal como o alemão, mas que não evoluíu como língua literária. É este dialecto que desde há uns 17 anos os Luxemburgueses têm vindo a transformar em língua oficial. Se considerarmos que o país tem uma população de cerca de 455 mil habitantes, 32% dos quais são estrangeiros e destes, mais de 12% são portugueses, e que uma grande parte da camada mais culta da população, de origem luxemburguesa, nem sequer fala o luxemburguês (exactamente por o considerar um dialecto inferior à língua francesa), podemos ter uma ideia do número de falantes de luxemburguês - provavelmente em número inferior a muitas línguas indígenas de África ou das Américas. Contudo, todos têm um grande orgulho na sua língua; existem cursos por todo o lado, e os estrangeiros residentes são pressionados para a aprenderem. E criaram há já anos um portal para se aprender o luxemburguês em linha!! Até os Ingleses e os Americanos, tão adversos a aprender outra língua além da sua, acabam em muitos dos casos por ceder à pressão. Os Luxemburgueses são um povo orgulhoso do seu país, que existe como estado independente desde... 1839! Portugal existe como país independente desde 1139! (1143 para quem aceitar a independência somente a partir do consentimento papal). Relativamente aos Portugueses emigrados no Canadá (dos Estados Unidos não posso falar porque nunca estive em contacto com nenhum), o fenómeno é semelhante ao caso francês, embora em menor escala: falam uma mistura de inglês e português. Contudo, a formação das palavras obedece a outro princípio e, na maior parte dos casos, não é por petulância nem complexo de superioridade, mas por desleixo, agravado pelo facto de que os nossos governantes nunca se incomodaram com as comunidades portuguesas, como todos sabemos. Esta atitude dos nossos governantes não é para admirar, pois nem em Portugal existem políticas de Educação e de Cultura dignas desses nomes. Vimos o que se passou recentemente na visita do Primeiro-Ministro a uma escola: as criancinhas dirigiram-se-lhe em inglês! Se calhar até teria gostado que tocassem o "God save the Queen!" Chocante!
Mas haverá algo mais chocante do que ouvir o Presidente da República Portuguesa - em público e como representante da Nação - falar outra língua que não o português? Pois por mais de uma vez se assistiu à vergonhosa atitude do agora ex-PR a falar "portunhol" ou "espanholês" (conforme quiserem chamar a esse dialecto igualmente tão na moda). Além de que foi contra o protocolo, que estipula que o chefe de Estado de um país só deve falar, quando em público e em representação do seu país, na língua desse seu país. É o que faz qualquer outro chefe de Estado digno do cargo que desempenha. Mas não foi só o ex-PR que cometeu essa falta grave. Também Santana Lopes, quando ainda PM, apareceu na televisão espanhola no dia 1 de Outubro de 2004, a falar "espanholês" ou "portunhol". E muitos outros Portugueses o fazem, o que é uma prova de falta de auto-estima e de orgulho, ao mesmo tempo também de arrogância. Se os altos representantes de uma nação não sabem manter uma postura digna e não se poupam ao uso de galicismos e anglicismos, como poderemos condenar o simples cidadão pela mesma falta? Evidentemente, todos somos pessoas livres de pensar pela nossa própria cabeça, sobretudo se aqueles que nos governam não têm essa capacidade. Mas, como o exemplo deve vir sempre de cima... é desculpável que muitos copiem o que julgam ser o modelo correcto. Por outro lado, os órgãos da informação - com especial destaque para a televisão, a chamada "universidade do povo" - cujo papel pedagógico deveria ser uma das suas prioridades, a par com o da informação isenta, são os primeiros a empregarem a torto e a direito toda a espécie de estrangeirismos, aliás bem inúteis, pois a nossa língua de Camões é suficientemente rica para dispensar esse género de "ajuda". Que pena não termos tido, ao longo da nossa História, vários D. Afonso Henriques para nos incutir sentimentos patrióticos que tanto escasseiam ou, o que é pior ainda, parece terem desaparecido! Valha-nos o Museu de Língua Portuguesa de São Paulo! Parabéns! Gostaria de ter mais informação, se possível. O meu bem-haja. Cumprimentos lusófonos.
Dulce Rodrigues www.estacaodaluz.org.br (Museu da lingua portuguesa)
Queres ser só!?... Imprudência!
Mesmo as pedras das calçadas,
ganham tanta resistência
porque vivem amparadas.
Lá porque a sorte me enjeita
tua soberba é pecado:
- O Sol é Imenso, e respeita
o meu chapéu desabado!...
Sobretudo, não desesperar. Não cair no ódio, nem na renúncia. Ser homem no meio de carneiros, ter lógica no meio dos sofismas, amar o povo no meio da retórica.
Deixa dizer-te os lindos versos raros
que foram feitos para te endoidecer!
Mas, meu amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
se dentro guarda um verso que não diz!
(In Os versos que te fiz)
Ontem fui surpreendido com uma atitude do Governador do Distrito Rotário 1970. (Para os que desconhecem: a parte do território continental a norte, sensivelmente, do paralelo da Batalha). O Companheiro Governador João José Barbosa concedeu-me, benevolentemente, durante a sua Visita Oficial ao Rotary Club de Aveiro, um placa em biscuit alusiva ao seu ano de Governadoria, aludindo ao facto de eu, quase diariamente, lhe enviar um mail o que, como disse, representou para si uma forma de presença, de encorajamento, de apoio a uma actividade muito exigente e que sempre se deseja desenvolvida em prol de um movimento ímpar à escala global.
Não esperava por tal. A minha surpresa foi completa. Mas veio mostrar que todos nós, com total espírito de serviço, total gratuitidade, podemos sempre fazer algo mais pelos outros.
Fazendo muito pouco, espero autoconvencer-me a fazer um pouco mais. Fica a promessa.
E como este espaço é, também e acima de tudo, para deixar coisas que selecciono como interessantes, não podia passar sem um provérbio à AMIZADE:
Amigo velho mais vale, que dinheiro.
(ed. 1780)
TU PALABRA
Tu palabra no pretende otra cosa
que nombrar los imperiosos objetos,
los voluntariosos reclamos al alcance de la mano.
Así, dices rosas, alimento, papel,
nieve, mañana, quizás otoño;
y de nuevo la obstinada lluvia.
Tu palabra es un poente,
una tenue frontera
entre tus labios y la vida.
(in Poesía reunida. Ed.: Ediciones Cultura Hispánica)
... TEMPOS QUE SE REPETEM?
(...) Nós, porém, mergulhados em vinho e no putedo, já não temos ânimo sequer para conhecer as artes tradicionais, antes nos limitamos a censurar a antiguidade, a aprender e a transmitir os seus defeitos. Onde está a dialéctica? Onde a astronomia? Onde o muito avisado caminho da sabedoria? Quem vai agora a um templo formular o voto de alcançar a eloquência? Quem, para atingir a fonte do conhecimento? Já nem sequer aspiram à sanidade do espírito ou do corpo; pelo contrário, ainda não atingiram o recinto do templo e já um promete uma oferenda, se conseguir despachar um parente rico; outro, se desenterrar um tesouro; outro ainda, se conseguir chegar com vida aos trinta milhões de sestércios. O própria senado, mestre de correcção e de bondade, costuma prometer mil libras de ouro ao Capitólio; e para que ninguém hesite em pedir riquezas, tratam de guarnecer até o pecúlio de Júpiter. Em suma: não te admires por a pintura estar em decadência, se aos deuses todos e aos homens parece mais belo um monte de ouro do que as obras de Apeles e de Fídias, esses pobres gregos amalucados.
(in Satyricon, de Petrónio. Ed.: Livros Cotovia)
UMA EMENTA
Leonardo de Vinci concebeu sofisticadíssimas máquinas de cozinha (um grelhador automático, uma lâmina misturadora, tambores para dar ritmo ao trabalho, um dispositivo para eliminar as rãs dos barris de água potável, etc.). Acabada a construção da cozinha, havia que imaginar a ementa para a noite de inauguração. Eis o que foi feito:
«Tinha agora consciência de que não podia ficar-se por umas belas cenouras esculpidas e de que a opção obrigatória era a comida milanesa tradicional, pelo que se pôs a inventar empadas magníficas e a provar uma infinidade de molhos; chamou os mais exímios fabricantes de salsichas, contratou os melhores magarefes, até que viu, finalmente, chegado o dia em que podia anunciar que as suas novas cozinhas estavam prontas para fornecer comida.»
(In Notas de cozinha de Leonardo da Vinci, de Shelag & J. Routh)
DO BEM FALAR, DO BEM ESCREVER...
Algumas expressões e palavras frequentemente usadas de forma incorrecta:
- Pirenéus e não Pirinéus
- Samatra e não Sumatra
- Seniores e não séniores
- Florida e não Flórida
- Ovelha ronhosa e não ovelha ranhosa
- Cumprimentar (saudar) e não comprimentar
- Donde se desfruta uma bela paisagem e não donde se disfruta...
- Doem-nos as pernas depois da íngreme... e não dói-nos as pernas depois de...
CONTRIBUTO PORTUGUÊS PARA A GLOBALIZAÇÃO
Vejam-se os seguintes exemplos:
- de um indivíduo que chega sempre a horas diz-se que tem pontualidade britânica.
- um indivíduo é forreta/avarento como um judeu/escocês.
- a precisão é a de um relógio suiço.
- fala-se pelos cotovelos como os italianos.
- um indivíduo é rigoroso, ordenado como um alemão.
- perante qualquer coisa de difícil entendimento diz-se ser japonês.
- se uma pessoa se mostra muito calma a resolver um problema muito difícil, diz-se ter paciência de chinês.
- A um jogador que joga bem, logo se diz ser bom de bola como um brasileiro.
- Um indivíduo que trabalha muito, tanto é um mouro de trabalho como trabalha que nem um galego.
A la sombra desnuda sus secretos
toda a música, los
únicos que no son
solo sonido sino
luz oculta hecha música:
el único camino hacia los reinos
que nunca sospechábamos.
(In Iniciacón a la sombra)
RAMALHO ORTIGÃO
Uma senhora lisboeta com prosápias de intelectual era uma má-língua profissional.
Um dia, numa tertúlia disse a Ramalho:
- Sabe que F. (referindo-se a um pintor) quer que eu seja modelo de um quadro que vai pintar?
- E qual o nome do quadro? - perguntou Ramalho.
- Cleópatra e a serpente.
- E quem é o modelo de Cleópatra? - perguntou maliciosamente o autor das Farpas.
Claro que a senhora cortou relações com Ramalho.
(Adapt. Anedotas...., de Lourenço Rodrigues)
A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida.
(John Dewey)
Na hora de agradecer ao deus
Depois de um lauto banquete, era ocasião para os agradecimentos.
«Discutem: quem fará a prece? O dono da casa fala ao conviva Demócrito:
- Dize o que quiseres; ficará escrito em vinho.
E Demócrito:
- Escopas: fatigaste-nos a fatigaste a tua mulher, criados, criadas, cozinheiras, padeiros e ainda os vizinhos para fatigar-nos a nós com a tua comida e bebida. Discretamente obrou Sócrates quando entrando num grande e provido mercado exclamou: "Oh, deuses imortais, de quanta coisa não necessito!" Tu poderias dizer o contrário, a saber: "Que são todas estas coisas, comparadas com as que necessito?" A natureza necessita de pouco, com pouco se sustenta e mantém, a abundância e a variedade sufocam. Plínio disse: "A diversidade de alimentos é pestilente ao homem e também a de condimentos." O peso do corpo e o embotamento dos espíritos provêm de muita comida e bebida, o que impede reagir como racionais. Por isso, julga por ti mesmo a gratidão que te devemos.
- Assim agradeceis comida tão opípara? - brada Escopas.
- Sim. E que melhor bem podemos trazer-te senão mostrar como como te deves conduzir? Tu nos envias a nossas casas feitos brutos; queremos deixar na tua homem que sabe cuidar da saúde, a própria e a alheia, vivendo de acordo com a natureza, e não segundo a opinião dos néscios. Passa bem e sê prudente.
Uma lição de moral, ao lado da de prazer."
(In Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo)
PARTIDOS NOS INICIOS DO SÉC. XIX
"Política de serralho, lhe chamou Pinheiro Chagas. E ninguém a definiu melhor, embora o autor dessa frase feliz seja, também, um dos eunucos do serralho! Política de serralho! O termo é bom. Política onde não pode haver escrúpulos, nem honestidade. Se alguma virgem transpõe as portas do palaciano alcouce, logo se convence de que lhe é impossível manter a sua virgindade lançando-se na crapulosa hediondez com a mesma febre de ganhar.
Os partidos monárquicos são isso, e nada mais em Portugal. São agências de negócios sujos, onde todos entram com o propósito exclusivo de encher os bolsos. Brio, independência, dignidade, patriotismo, tudo isso é retórica. Entram para lá alguns ingénuos convencidos da sinceridade dos que proferem essas palavras. Mas são logo alvo dos motejos dos velhos macacões e, ou cansados de lutar encolhem os ombros e deixam correr o marfim, ou convencidos de que realmente é tolice ser catão, começam de repente a dilatar as unhas e a cravá-las na fazenda nacional com o duplo desespero do logro em que andaram no princípio e da perda de tempo que, tendo-o deixado fugir, muito bem pode suceder não o poderem recuperar."
In Monarchicos e republicanos, de Homem Cristo.
BERNARD SHAW
Um dia, respondeu a um admirador que lhe perguntou se a sua inteligência se manifestara muito cedo:
- "Levei quinze anos para descobrir que não tinha o menor talento para escrever, mas não pude desistir porque, nessa altura, já era bastante famoso".
Sem esta terra funda e fundo rio,
que ergue as asas e sobe, em claro voo,
sem estes ermos montes e arvoredos,
eu não era o que sou.
(In As sombras)
AGOSTINHO DA SILVA - 13. Fev. 06 (Centenário do nascimento)
Homenagem com o pensamento que melhor poderá definir o seu modo de estar:
Cometo acções como um poeta comete versos.
VINHOS FRANCESES/VINHO DO CORVELO
«Eu, para mim, prefiro este vinho do Corvelo a todos os vinhos franceses...»
(In Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós.)
QUADRAS
Uma hora dura a vida
se espero e tu te demoras.
Chegas e, logo em seguida,
nem dou p'lo tempo das horas!
A esperança deve ser tida
sempre, na vida, por norte,
e até para além da Vida,
se há vida p'ra lá da Morte.
(Silva Tavares)
QUADRAS
Lá porque ando em baixo agora
não me negues tua estima:
Os alcatruzes da nora
não andam sempre por cima!
Somei, desde que te vi,
o que fiz p'ra te prender.
Total: sou louco por ti...
Tira a prova e vais ver!...
(Silva Tavares)
Se te propuseres a dizer a verdade, trata de deixar a elegância no alfaiate.
(A. Einstein)
MORTES ESTRANHAS
- Ésquilo, morreu aos 95 anos, quando lhe caiu em cima da cabeça uma tartaruga largada por uma águia que antes lha arrebatara.
- Anacreonte, morreu de asfixia provocada por uma grainha de uva, aos 82 anos.
- Agatodes, morreu aos 95 anos com um palito atravessado na garganta.
- Roberto Baton, faleceu no dia marcado no horóscopo feito por si próprio.
- Frederich Geyer, morreu no tribunal de Nuremberga ao dizer: "Caia eu morto aqui mesmo se é verdadeira a acusação que fazem contra mim".
ORAÇÃO CONTRA A VERTOEJA
Sapo sapão,
bicho bichão,
rato ratão,
lagarto lagartão
saramela saramelão,
aranha aranhão
e todos os bichos que tais
secos mirrados sejais.
(ed. 1894)
ORAÇÃO FÚNEBRE
Não é ostentação da vaidade, nem a adulação da riqueza e do poder que nos atrai hoje aqui a este obséquio fúnebre. É a voz augusta da Religião que nos manda orar junto do túmulo de dois Grandes Filhos da Igreja Católica: é o amor santo da Pátria que nos manda honrar a memória do nosso Rei e do nosso Príncipe, dignos do nosso respeito e amor, pelas suas acções e virtudes, e mais dignos ainda da nossa saudade e das nossas lágrimas, pela morte trágica que os prostrou. É a expressão inofensiva da saudade, desafogando nesta pompa fúnebre, os sentimentos de dedicação e amor pelo Rei e pelo Príncipe, que a ingratidão mais descaroável e o furacão das tempestades políticas arrojaram para a eterna paz do Senhor!
Pompas iguais, honras semelhantes, prestadas em todos os recantos da terra portuguesa (...) são uma prova frisante, um testemunho insuspeito e um pregão eloquente do amor que em todos existia pelos Augustos Extintos, e da dor que agora punge o coração de todos os portugueses, ainda os mais intransigentes, mas sinceros e honrados adersários das Instituições, pelo infame e cobarde atentado que os vitimou.
(...)
Pois seja também com flores que entreteçamos uma coroa de amores, venerações e respeitos (que endereça à Família real) tão digna como virtuosa, tão prestimosa como patriótica: é que na fragância dessas flores, subam até Deus, as nossas orações implorando para os nossos queridos mortos a Luz da Graça Infinita e o descanço da Paz Eterna; e para os outros... para os desgraçados, que os mataram... para esses... o perdão sa Sua Misericórdia sem limites.
Venho espontaneamente aqui, sem convite de qualidade alguma, porque unindo ao vosso, o meu preito de saudosa homenagem, quero, pobre, mas sinceramente dar um testemunho público, da dor íntima que aflige a minha alma, pela morte de Aqueles a quem na vida dediquei afectuoso amor de obscuro mas fiel vassalo. É empresa superior às minhas forças, bem o sei, não digo já, o traçar a biografia, mas desenhar os perfis, mas perfis instantâneos do meu Rei e do meu Príncipe.Sirvam porém a pureza das minhas intenções e a sinceridade das minhas convicções de motivo à vossa generosa indulgência a que desde já ligo o meu profundo reconhecimento. E para que meus lábios não profiram senão palavras de paz, de amor, de verdade e Religião, eu imploro as luzes do Altíssimo que dá o descanso Eterno aos que se finam.
(...)
Para o espírito de Portugal, a morte destes seus dois filhos foi um atristíssima tristeza e uma grande eliminação. O País interiro amou e venerou esses dois nomes, que glorificam um anacionalidade e enobrecem uma civilização. Grandes pela crença, pelo carácter, pela honra e pela virtude, fiéis servidores da causa da religião e da Pátria, da civilização e do progresso, o Rei e o Príncipe ao morrerem, assinalaram o luto do País e eternizaram a sua existência.
(Excertos de Oração fúnebre, recitada nas exéquias celebradas em Condeixa, em 22 de Fevereiro de 1908, pelo Padre João Augusto Antunes.)
... TEMPOS QUE SE REPETEM?
As quadrilhas só queriam o poder pelo poder. Portanto, o poder a todo o transe. Um partido seis anos, oito, dez, já não digo 15, 20, 30 e mais anos no governo, como na Inglaterra, na bèlgica e na Suiça, as mais democráticas nações da Europa, não se compreendia nem se admitia em Portugal. Ainda bem uma quadrilha não tinha saido do poder já empregava todos os processos para, de novo, alcançar o poder. Todos os processos! Servia-lhe a lisonja, o servilismo, a corrupção, o roubo, a mentira. Servia-lhe a ameaça. Servia-lhe a arruaça. Aliava-se com os republicanos. Aliava-se com os anarquistas. Aliava-se com o inferno. Vendia a alma ao diabo. Tudo!. Numa palavra, tudo! Todos os expedientes eram bons. Todos os processos eram lícitos. O rei queria colocar-se rigorosamente sob o ponto de vista constitucional? Impossível! Queria guiar-se pelos ditames da honra, da correcção e do bem do público? Estava perdido (...)
No dia em que o rei de Portugal quis levantar as rações à cobiça e reprimir a bambochata dos interesses particulares para os subordinar a um intersse sa salvação colectiva, foi assassinado e a monarquia extinguiu-se.
(in Monarchicos e republicanos, de Homem Cristo)
[Aveiro, 1 de Fevereiro de 2006 - A História ainda não julgou!]
T-SHIRT
T-shirt (de origem inglesa) significa literalmente T-camisa, em alusão à sua semelhança com a letra T. Os pioneiros no uso da T-shirt foram os soldados que combateramdurante a Primeira Grande Guerra, que a vestiam sob a farda. Com o tempo, foi adoptada também pelos operários, porque confere maior liberdade de movimentos. depois que o seu uso se massificou na década de 60, tem sido muitas vezes utilizada para transmitir mensagens e slogans.
In As faces secretas das palavras (adapt.), de Alice Póvoa, et al. Porto: ASA
TEMPOS QUE FORAM...
Foram eles que afirmaram, sucessiva e insistentemente, que era o rei a causa da corrupção do sistema, dos partidos e dos homens. Consequentemente, e era o que convinha à propaganda dos republicanos, isso tornou-se um dos mais importantes artigos do evangelho democrático. Ora o mais elementar raciocínio, se sectários pudessem raciocinar, demonstraria o contrário. Com efeito, desde que não havia opinião pública nem condições de governo representativo e parlamentar, o rei tornava-se o árbitro da posse do poder. E sendo o rei o árbitro da posse do poder, e não tendo as quadrilhas, na falta e absoluta impossibilidade de partidos, outro fim que satisfazer ganâncias e abjectas ambições à custa do governo, o rei, necessariamente, se desmoralizava. Assim, a sua desmoralização não era uma causa. Era uma consequência.
In Monarchicos e republicanos, de Homem Christo.
Iguarias e mais iguarias...
Há um desfile de peixes: a lubina assada com vinagre e alcaparras; os rodovalhos fervidos em caldo de labaça azeda; os linguados fritos. linguados frescos, o atum em salmoura, o mujol, o linguado salgado, as anchovas frescas fritas, as empadas de salmonetes, "as lamoreias e trutas adubadas de muitas espécies". Essas empadas são os pastelicos das judias sefarditas, que até hoje dizem, de Espanha a Israel: Pastelico e banio, no mas manque todo el anio.
Comia-se de faca e colher - e a melhor os navegantes achariam no Brasil, feita de concha de marisco, na mão dos índios (...)
A segunda coberta do banquete descrito por Vives (e encontraremos as "cobertas" no livro de culinária de Domingos Rodrigues, dois séculos depois) consta de assados, frangos, perdizes, tordos, ades, patos, borrachos, coelhos, lebres, terneira, cabrito e molhos: vinagre, agraços, limões e azeitonas da Maiorca adubadas, partidas e postas em salmoura.
- Que fazer com os grandes animais, os gansos, cisnes e perus?
O anfitrião parece não gostar deles:
- Vê-los e devolvê-los à cozinha.
No entanto outro informa: para Quinto Hortênsio não há melhor presente que o peru. Outro recomenda deixar de lado a carne de carneiro:
- Porque é insana. Dizem que sai da mesma maneira como entrou.
In Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo
(...)
E infame sou, porque te quero; e tanto
que de mim tenho espanto,
de ti medo e terror...
Mas amar! Não te amo, não.
In Não te amo, de Almeida Garrett
IDENTIDADE NACIONAL
O texto seleccionado e que aqui foi sendo inserido em dias anteriores foi retirado da obra a seguir indicada. Que possa constituir incentivo para a sua leitura integral:
DURAND, Gilbert, (s/d), Mito, símbolo e mitodologia. Lisboa: Editorial Presença.
JOSÉ ESTÊVÃO Coelho de Magalhães, natural de Aveiro, foi um notável parlamentar que ficou conhecido pelos seus escritos sempre muito judiciosos embora, por vezes, um tanto violentos. Igualmente ficaram registados numerosos apartes, alguns bem cáusticos, como este:
Um marquês, deputado pelo Norte, não tinha o tribuno em grande apreço. Ao que José Estêvão pagava na mesma moeda. Como o marquês pintava o cabelo, José Estêvão não deixou, um dia, escapar a oportunidade, atirando-lhe:
«Quem pode acreditar num homem que traz estampada a mentrira sobre a sua fronte?»
In Anedotas e episódios..., de Lourenço Rodrigues
IDENTIDADE NACIONAL
Por isso, direi aqui, (...) o que apenas se ousa balbuciar nas margens escolásticas do Sena. Neste clima de doçura, de sonho, de nostalgia, de civilidade e de xtrema cortesia - os meus colegas levam-na ao ponto de falarem um francês sem sotaque e impecável - crei que as «novas filosofias», « as novas metodologias», as cem flores de epistemologia que desabrocha (serão cravos?), de uma modernidade que se procura e que pouco a pouco se encontra alegrementeao reencontrar a camada de areia original debaixo dos pavimentos das frias razões e dos cálculos sangrentos, podem desenvolver-se neste clima lusitano, com uma extraordinária amplitude.
(G. Durand)
IDENTIDADE NACIONAL
Parece-me que aqui, nas margens do Tejo ou do Mondego como ponto de passagem para o sonho reencontrado do Ocidente, as ilhas onde Vasco da Gama desposou Tethys ao vento do Atlântico dos sonhos, tudo deve ser mais fácil para ajudar a Europa, sob o peso latino ou germânico, a virar a grande página do tempo, e a conduzi-la aos horizontes renovados do seu próprio saber.
(G. Durand)
Cá vai um, de um anónimo, que julgo merecer alguma reflexão. Vejamos:
Do que dizes és senhor; do que guardas és escravo.
(Anónimo)
IDENTIDADE NACIONAL
Os tempos de um inelutável reencantamento (Bezauberung diria um Max Weber ressuscitado!) soaram para a Europa. E, muito naturalmente, a Europa ao reencontrar o «direito de sonhar» (G. Bachelard) redescobre Portugal. Quero ver um signo desse feliz reencontro neste confraterno convite da Universidade Nova de Lisboa - e nomeadamente do Gabinete de Estudos de Simbologia (G.E.S.) - para vir falar aos estudantes e aos colegas portugueses de novos métodos de análise situados, entre nós, no «pós-estruturalismo». A terra, o coração das instituições universitárias portuguesas parecem-me predestinadas para integrar, re-centrar toda esta reconquista do Imaginário, na qualk eu estive em França ao lado de (...). Mas quanta coragem e quanta tenacidade nos foi necessária no país de Decartes, de Voltaire (...) para nos acertarmos pela hora epistemológica da Europa de Freud, de Cassirer ou de Jung!
(G. Durand)
IDENTIDADE NACIONAL
O que faz a tristeza aguda do olhar das personagens de Nuno Gonçalves, o que faz a doçura um pouco grave, a alegria sempre velada, a distinção e mesmo a discrição no lamento do fado é uma espécie de sebastianismo nativo da alma portuguesa. A nostalgia não de um Império perdido - o que seria pena trivial - mas de um Império para sempre inacessível apesar da circum-navegação de Magalhães à volta do globo. A nostalgia de um Império imaginário, escondido - encoberto - a toda a profanação, não metade do mundo concedida pelo papa espanhol Alexandre Borgia mas duplo do mundo, de que o fabuloso Brasil, o imenso Moçambique, Angola, a Guiné e mesmo a Madeira e os Açores não são mais do que os rostos... Império da Atlântida, talvez, que emociona também o nosso velho sangue celta. Irlanda do continente, Bretanha da Ibéria, tem muitas conivências com os nossos sonhos recalcados de europeus outrora colonizados!
(Gilbert Gurand)
IDENTIDADE NACIONAL
É que a Europa, desencantada por demasiadas Razões que resultam em massacres e em genocídios, volta a interessar-se pelo Sonho, recupara a esperança graças ao Imaginário. Será necessário citar aqui o nosso Gaston Bachelard, que foi meu mestre, embora estivesse na Sorbonne? Será necessário evocar Freud, Jung, Dumézil, Cassirer? Por isso, a nossa nova Bezauberung redescobre esse país de contradições, «terno e risonho, por dentro atormentado e trágico», como escrevia o esdpanhol Unamuno. O canto lusitano, quer seja o de Camões, o do fado, de Eugénio de Castro, da Presença, da saudade, do Novo Cancioneiro, de Vergílio Ferreira, de Nuno Gonçalves, ou de Vasco Fernandes é talvez o da nostalgia de imagens perdidas e longínquas, desvitalizadas pela nossa modernidade latino-germânica.
(Gilbert Durand)
IDENTIDADE NACIONAL
Face de uma Península única onde se misturaram os sangues e os génios ibero, celta, visigodo e mouro. A Europa desde há três séculos que caminha com os pés demasiado no ar - logo com a cabeça para baixo - julgando percorrer o céu dos astrónomos e dos astronautas. Mas o olhar da Lusitânia, debaixo do sobrolho do Mondego, olha outras paisagens com a pupila de Coimbra. O grande sonho de Os Lusíadas não terminou com a descolonização banal. Um eco vindo desse país de sonhos gloriosos desencadeou entre nó, em pleno classicismo, toda a sentimentalidade romântica com a famosa «Religiosa Portuguesa». Soror Mariana não passa talvez de uma ficção, mas que importa! Don Quixote também é uma ficção! E Inês de Castro só ganhou sentido pela história tornada lenda. Mesmo a tão invulgar «Revolução dos Carvos» subitamente acordou na França, tão blasée de revoluções racionais e sangrentas, uma nostalgia primaveril e um interesse novo pela «Varanda sobre o Oceano».
(Gilbert Durand)
IDENTIDADE NACIONAL
De vez em quando faço umas incursões por esta temática. Hoje, e a continuar nos próximos dias, trago o que Gilbert Durand disse em 10 de Fevereiro de 1981, em Lisboa.
"Vasco da Gama descrevia orgulhosamente ao sultão de Moçambique a Península Ibérica como a «cabeça da Europa». O que significa, então, que Portugal, coberto com a capucha espanhola, é o seu rosto. Perfil que respira por Lisboa e pelo estuário do Tejo e sorri com o estuário do Sado. Rosto da Europa? Talvez antes face enigmática dessa maciça Península Ibérica duplamente fechada pelos Pirenéus e pelos Montes Cantábricos. Voltada para um Atlântico - no extremo ocidental da Península - cujos horizontes não são de modo nenhum os de betão e aço de Manhattan ou Brooklin... É talvez por isso que a Europa da Razão - e a França de Descartes - tem ignorado demasiado Portugal. A Inglaterra, céltica antes de ser saxónica, a Inglaterra de Byron, de Beckford ou de Tom Jones - ela também cheia dos sonhos do mar imenso - compreendeu melhor o «glorioso Éden» das colinas de Sintra."
Muito adequado em qualquer época do ano, designadamente quando um renovo, cíclico, se assinala.
Um mundo novo não é mais do que um novo modo de pensar.
(William Carlos Williams)
Em jeito de mensagem de Ano Novo:
Felizes os que sabem rir de si próprios,
porque nunca deixarão de se divertir.
(Joseph Folliet)
PRATOS NACIONAIS - Os propriamente ditos e os compostos
As delícias de um prato composto são todas, por via de regra, produtos da cultura literária coagindo a vontade a um certo efeito agradávelde degustação. As de um prato nacional, ao contrário, são delícias físicas espontaneamente intuitivas, e não demandando por isso educação alguma das papilas sensórias da boca, e seus anexos. Aquelas sendo delícias eruditas, não abrangem mais do que umpequeno número de participantes, e por isso os pratos compostos nunca poderão ser pratos populares.
Estas porém, com o corresponderam a sínteses de paladares ancestrais, afinadas por hereditariedade através das gerações humanas e dos tempos, quadram à generalidade sem mais preparo ou exame, e assim vão de cabana ao palácio, apreciadas com o mesmo favor benevolente.
(Fialho de Almeida, cit. in Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
PRATOS NACIONAIS - O toque pessoal
Dizei-me oh quem se tenha refocilado até aos gorgomilos, nestes regalos supremos da vida vegetativa, dizei-me se em cada um dos pratos que vos cito não palpitam estros de nacionalidade, hinos da Restauração, e bandeiras azuis e brancas - sem coroa!
Dizei-me se não há miragens de raça, conchegos de família, têtes-à-têtes de cordialidade esternecida, na frequentação de cada uma daquelas petisqueiras, verdadeiros orfeões gustativos, onde o paladar se desdobra em crises sensacionais, qual mais vibrante, e cada uma provocada por um certo condimento ou tempero, que num milésimo de instante, sobre as papilas da língua, conseguiu dar a sua nota pessoal, sem quebra de harmonia no conjunto.
(Fialho de Almeida, cit. in Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
Pratos nacionais - Tripas, caldo verde...
Não falarei das tripas do Porto, prato de reis em edição de povo, nas tabernas: nas frigideiras de Braga; nas iscas lisboetas, foigras du pauvre, que mereceram ao actor Breton, da companhia de Sarah Bernardht, uma elegia magnífica de ternura - nem na perdiz à moda de Mirandela, nem no carneiro à moda de Valença, nem nas sopas de tomate, ovos e queijo, ou nas migas com paio, do Alentejo - nem, enfim, no coelho com sangue e arroz da Bairrada, esmagado à pedra - nem no sagrado e arqui-simplíssimo caldo verde, essência da vida, móvel de actividade e de força, que faz o segredo da validez das nossas raças do norte...
(Fialho de Almeida, cit. in Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
PRATOS NACIONAIS - Caldeiradas
Ao longo do litoral por exemplo, a caldeirada portuguesa, tão diferente conforme a província, o pescado, e até a companha de pescadores e a praia em que residem... Quem não comeu já a caldeirada do safio e eirós dos catraeiros da Trafaria e Porto Brandão, as caldeiradas patrícias, inverosivelmente celestes dos Gamelas de Aveiro, e a caldeirada de raia dos pescadores da costa de S. Jacinto? Isto para não citar o já velho e esquecido caldeirista-mór da rigolade alfacinha, António de Belém, perto dos arcos, cujo génio do refogado, nas suas relações sociais e aperitivas com o peixe, era tão alto, que o crítico francês Charles Yriarte, jantando ali uma vez comigo, prometeu mandar-lhe de Paris o diploma de sócio do Instituto.
(Fialho de Almeida, cit. in Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
PRATOS NACIONAIS - Caldeiradas
Ao longo do litoral por exemplo, a caldeirada portuguesa, tão diferente conforme a província, o pescado, e até a companha de pescadores e a praia em que residem... Quem não comeu já a caldeirada do safio e eirós dos catraeiros da Trafaria e Porto Brandão, as caldeiradas patrícias, inverosivelmente celestes dos Gamelas de Aveiro, e a caldeirada de raia dos pescadores da costa de S. Jacinto? Isto para não citar o já velho e esquecido caldeirista-mór da rigolade alfacinha, António de Belém, perto dos arcos, cujo génio do refogado, nas suas relações sociais e aperitivas com o peixe, era tão alto, que o crítico francês Charles Yriarte, jantando ali uma vez comigo, prometeu mandar-lhe de Paris o diploma de sócio do Instituto.
(Fialho de Almeida, cit. in Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
PRATOS NACIONAIS
O prato nacional é como o romanceiro nacional, um produto do génio colectivo; ninguém o inventou e inventaram-no todos; vem-se ao mundo chorando por ele, e quando se deixa a pátria, lá longe, antes do pai e da mãe, é a primeira coisa que lembra.
Ora ao passo que o francês apenas conta em pratos nacionais, as medíocres tripas de Cayenna e a infecta bouillabaisse provençal, o italiano o macarroni e alguns desagradáveis petiscos e berrar de especiarias, e o nosso amigo espanhol a sua complicada e maravilhosa olla podrida, em Portugal não há província, distrito, terra que não registe entre os monumentos locais, a especialidade de um petisco raro, sábio, fino, verdadeira sinfonia de sabores sempre sublime, embora uma ou outra vez palreira e desinquieta nas regiões infra-diafragmáticas do tubo esmoedor.
(Fialho de Almeida, cit. in Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
«O que é um prato nacional?
Uma composição culinária rebelde à escripta dos manuais, característica, inconfundível, incapaz de se exprimir em quantidade de ingredientes, fracções de tempo, e acção rápida ou lenta do frio, do calor, da água, do gelo, do uso da peneira, do passador, da faca ou da colher. Transmite-se por tradição: os estrangeiros não sabem confeccioná-lo, mesmo naturalizados: tendo chegado até nós por processos lentos, e contraprovas de biliões de experimentadores, sucessivamente interessados em o fixar na sua forma irrepreensível, resulta ser ele sempre uma coisa sápida e sadia.
Isto o distingue dos pratos compostos, quero dizer daquelas mixórdias de comestíveis e temperos, doseados a poder de balança, exclusivamente científicas, nada intuitivas, e meramente inventadas, com que os cozinheiros literários enchem páginas e páginas dos seus tratados de cozinha.»
(Fialho de Almeida, cit. in Volúpia - A nona arte: a gastronomia, de Albino Forjaz de Sampaio)
Requisitos básicos para uma cozinha.
Em primeiro lugar (é preciso) um lume permanente.
Depois, um fornecimento constante de água a ferver.
Depois, que o chão esteja sempre limpo.
Depois, ainda, dispositivos para limpar, esmagar, cortar, moer e pelar.
E ainda um dispositivo para manter a cozinha livre de cheiros e pestilências, dotando-a de uma atmosfera limpa e sem fumos.
E música, pois os homens trabalham melhor e com mais alegria quando há música.
Por fim, um engenho para eliminar as rãs dos barris de água potável.
(in Notas de cozinha..., de Shelag & Jonathan Routh)
COMENTÁRIO SOBRE A PINTURA DE RUBENS
Rubens, o pintor de carnações fortes, mereceu-lhe um dia este comentário:
- "Quando vejo um quadro de Rubens, dá-me vontade de gritar: Rubens, traz me meia tonelada de coxas de deusas. Rubeens é um marchante de carne olímpica".
In Anedotas, etc., de Lourenço Rodrigues)
CARTA DE GUIA DE CASADOS
De todas as graças das mulheres, a graça é a que tenho por mais perigosa, porque para se usar dela, necessita de menos aparelhos; sendo, a meu juízo, esta graça a mais perigosa desgraça.
Cantar a mulher a seu marido e filhos, se os tem, coisa parece lícita, e o seria o dançar alguma hora na sua câmara, enquanto a idade lhe permitisse essa alegria. Não louvo o trazer castanhetas na algibeira, o saber xácaras, e entender de mudanças do sarambeque por serem indícios da desenvoltura.
Mas aquilo de ser engraçada e aguda na visita, na igreja, no coche e no paço, traz grandes inconvenientes consigo, e dificílimos de atalhar; porque das coisas a que se segue aplauso, bem ou mal ganhado, ninguém se arrepende.
Vale-se disso seu marido; e, se com ela acabar a emenda, creia que fez muito, porque deste mal nunca vi a nenhum doente convalescido.
(Cap. XI)
CARTA DE GUIA DE CASADOS
Dizia a este propósito a princesa de Roca-Sorion em França, que foi discretíssima, e não bem casada: que das três potências com que entrara em poder de seu marido, duas lhe tomara ele, e lhe deixara uma só, que ela lhe dera bem facilmente. Porque nem a potência do entender nem a do querer tinha já; e só lhe ficara a memória de que as tivera em algum tempo, para sentir mais a pena de se ver agora sem entendimentos nem vontade.
(cap. XI)
CARTA DE GUIA DE CASADOS
Pergunta alguém, algumas vezes, se seria lícito deixar usar a mulher própria daquelas partes de que a dotou a natureza; como o cantar, o dançar, e ainda o fazer versos, e outras semelhantes prerrogativas, que em algumas se acham, e em muitas pudera haver, se o receio não as suprimisse.
Certamente, que se V. Ex.ª me fizera esta pergunta, me vira eu em grande enleio; porque o aniquilar em qualquer pessoa as perfeições que Deus lhe deu, impiedade parece; fazer-lhas exercitar naqueles limites que a prudência requer, parece impossível.
(cap. XI)
CARTA DE GUIA DE CASADOS
Meu ânimo (segundo já deixo dito) não foi aconselhar como deve casar-se; que o acerto de V. Mercês me deixou livre desse trabalho; podendo por esse exemplo aconselhar a todos como era bem que se casassem; se forem tão venturosos que assim possam.
Para o que já casou, e supomos bem casado, é que juntamos aqui estas advertências.
(cap. XI)
PARA FAZER PASSAR A BEBEDEIRA
Fazei beber ao bêbado um copo de vinagre com sumo de couves, ou comer algum sal.
(In Almanaque Laemmert, 1877, cit. in Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo)
A revolução da escrita já deixou muita gente de fora,
esta (das TIC) vai deixar muito mais.
(Paulo Freire)
Cirurgia estética -
opinião de um jornalista camaronês sobre a morte de Stella Obasanjo:
«Um porco será sempre um porco, seja qual for a pele que o veste.
A cirurgia estética é uma estupidez dos ocidentais»
A QUADRATURA DO CÍRCULO
Um professor colocava sempre uma circunferência à volta da nota com que classificava os trabalhos escritos dos alunos. Ora, após uma corecção ouviu um aluno dizer-lhe:
- Professor, esqueceu-se de pôr a nota dentro da circunferência.
- Lamento informá-lo, disse o professor, mas do que me esqueci foi de pôr a circunferência à volta da nota.
Refeição em casa dos Sforza (cont.).
Eis o que Ludovico Sforza ordenou que fosse comprado:
- 600 salsichões com miolos de porco de Bolonha
- 300 Zampone (pernas de porco recheadas de Modena)
- 1200 empadas de Ferrara
- 200 vitelas, galinhas e patos
- 60 pavões, cisnes e garças
- Maçapão de Siena
- Queijo Gorgonzola com o selo da Guilda dos Queijeiros
- Carne picada de Monza
- 2000 ostras de Veneza
- Macarrão de Génova
- Esturjão
- Trufas
- Puré de nabo
In Notas de cozinha de Leonardo da Vinci, de Shelag & Jonathan Routh
[Quanto a opções, ficam ao critério de cada um...]
REFEIÇÃO PROPOSTA POR LEONARDO, em casa dos Sforza
- Uma anchova enrolada sobre uma rodela de nabo, esculpida na forma de uma rã.
- Outra anchova, disposta em espiral à volta de uma erva.
- Uma cenoura finamente trabalhada.
- Um coração de alcachofra.
- Duas metades de pepino de conserva por cima de uma folha de alface.
- Um peito de pequena ave canora.
- Um ovo de pavão.
- Um testículo de carneiro envolto em natas (frio)
- Uma perna de rã sobre uma folha de dente-de-leão.
- Um pé de carneiro cozido e desossado.
(Seguir-se-à o que Ludovico Sforza encomendou para este repasto...)
O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oreinte a Ocidente jaz, fitando.
E toldam-lhe românticos cabelos
olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
o direito é em ângulodisposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
este diz Inglaterra onde, afastado,
a mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita com o olhar esfíngico e fatal
o Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
Serão felizes as repúblicas, quando os filósofos forem reis, ou os reis filósofos.
REFEIÇÕERS TRADICIONAIS POPULARES
(Cont.)
O uso de dar graças a Deus no fim do jantar (e às vezes da ceia) é geral. Diz-se uma pequena oração, como: Nosso Senhor nos dê muito e sustente com pouco, etc. Enquanto se come, não deve estar dinheiro sobre a mesa, porque é é sinal de traição ou pobreza (Vila Real).
À mesa do jantar não nos devemos sentar entre médico e padre, porque é sinal de morte (Douro).
Se estão treze pessoas à mesa, morre uma nesse ano.
Não se deve comer ao luar, porque quem come ao luar come a lua.
Não se deve estar na quina da mesa, porque quem aí está não casa (Porto).
À parte da comida que não é caldo chama-se conduito ou peguilho; até se diz a alguém que está a comer pão: apeguilha-o com alguma coisa (Beira Alta).
Enquanto se faz a ceia, a família está ao lume e reza a coroa de Nossa Senhora em coro (aldeias da Beira Baixa).
In Tradicões populares de Portugal, de J. Leite de Vasconcelos
REFEIÇÕES TRADICIONAIS PORTUGUESAS
Os nomes portugueses das comidas são: a parva, o almoço, a côdea, chamada também fatiga (fatia), o jantar (pron. pop. jentar, jintar), a merenda, a ceia e o ceiote (pron.pop. cióte, verbo ciotar).
A parva consta de pouca comida, como azeitonas com pão e aguardente, e dá-se antes do almoço aos trabalhadores, os quais dizem então que vão matar o bicho (Beira Alta). O almoço é a comida da manhã.
A côdea é uma pequena refeição entre o almoço e o jantar (Carrazeda de Ansiães).
O jantar, nas aldeias, é geralmente à hora do meio-dia.
A merenda (só há merendas desde 25 de Março até 8 de Setembro) é à tarde. A ceia é ao anoitecer. O ceiote é geralmente à meia-noite, e dá-se aos homens que andam em certos trabalhos, como de lagar, etc.
Em algumas partes é costume dizer certa oração ao começar a comer.
In Tradições populares portuguesas, de J. Leite de Vasconcelos
MARCO AURÉLIO
Se realizas a faina que tens entre mãos segundo a recta razão, com zelo, com energia, bom humor e sem preocupação adscritícia; se, por outra banda, conservas a voz do íntimo constantemente pura, como se tivesses de morrer dentro de instantes; se lhe acrescentas a disposição de nada esperar, de nada fugir; se te contentares com o trabalho presente conforme à natureza e, nos mínimos cometimentos, com a sinceridade heróica, nesse caso viverás feliz.
E ninguém há aí que te possa impedir de o ser.
In Pensamentos
D. CARLOS E HENRIQUE CASANOVA
Como é sabido, D. Carlos foi pintor e de certo mérito. Os seus inimigos chegaram a acusá-lo de assinar como se fossem dele, uns quadros pintados pelo pintor espanholHenrique Casanova. Um dia, o facto chegou ao seu conhecimento e logo ele:
- «Entre mim e o Casanova há uma grande diferença. É que eu pinto mal e ele pinta bem. Portanto, é fácil descobrir quais são os meus trabalhos e quais são os dele».
In Anedotas e episódios da vida de pessoas célebres, de Lourenço Rodrigues
Nouvelle cuisine
Leonardo de Vinci fundou a sua nouvelle cuisine na rejeição dos pantagruélicos pratos de pernas de vaca que, no seu tempo, estavam omnipresentes nas mesas, bem como na sua preferência pelo aspecto agradável de um simples prato vegetariano, que pensava poder propor como anternativa atraente. Experiências iniciais como as que serviu aos seus clientes na Taberna dos Três Caracóis (...) reduziam-se à apresentação de folhas de manjericão, cuidadosamente dispostas, todas do mesmo tamanho e coladas com saliva de vaca e rodelas de pão cinzento.
In Notas de cozinha de Leonardo da Vinci, de Shelag & Jonathan Routh
CONTRA OS SOLUÇOS
Homem bom,
mulher má,
casa varrida
esteira rota...
Senhor São Brás
disse a seu moço
que subisse ou que descesse
soluço do pescoço.
Que bebo?
Água de Cristo,
que é bom para isto.
(Pausa para dar água a beber à criança e se lhe coloca um pedacinho de lã na testa)
Soluço vai,
soluço vem,
soluço vai
para quem te quer bem.
(popular)
COLUMBANO
Um pintor gozava da estima do mestre que apenas lhe censurava a lentidão. Dele dizia:
- F., tem vocação para a pintura, mas é tão mandrião que, se um dia for consagrado, só pinta árvores no Inverno, para evitar de lhe pintar as folhas...
PAELLA
E, como já estão no peixe, um grita, como no diálogo anterior:
- Ah! peixe e carne na mesma comida! Isto os médicos proíbem!
(Proíbem, digo eu: na Valência de Vives nasceu a "paella valenciana", de carnes e peixes...).
In Comidas, meu santo, de Guilherme Figueiredo
Baptizar o vinho
«- Em nações onde se bebe água com vinho, deita-se vinho na água; mas onde querem beber vinho com água, deitem água no vinho.
- E que bebem aquelas que não deitam água no vinho?
- Vinho limpo e puro.
- Salvo se antes não lhe deitou água o taberneiro.
- A isto se chama batizar o vinho para que seja cristão.
Tal frase era, no meu tempo, elegância filosófica.»
In Comidas, meu santo - Guilherme Figueiredo
ORIGEM DAS CABELEIRAS
Carlos V, quando visitou o Papa Clemente VII, teve uma forte dor de cabeça. Supondo que rapando a cabeça a dor passaria, logo ordenou que lha rapassem. Ao ver-se ao espelho, careca, detestou o que via reflectido e de imedianto pediu uma cabeleira. E, assim, a moda ficou lançada.
ALJUBARROTA, por Fernão Lopes
(...) E sendo a batalha cada vez maior e mui ferida de ambas as partes, prouve a Deus que a bandeira de Castela foi derribada e o pendão da divisa com ela, e alguns castelhanos começaram a voltar atrás; os moços portugueses que tinham as bestas e muitos dos outros que eram com eles, começaram altas vozes bradar e dizer:
- Já fogem! Já fogem!
E os castelhanos, para não fazer deles mentirosos, começaram cada vez de fugir mais.
MERIDIANOS
O Jorge Garbriel leu ontem, dia 28 de Setembro, na RTP 1, uma pergunta que referia "as linhas" que passam pelos pólos. A resposta: meridianos.
Só que os meridianos, como o Equador, os paralelos não são linhas, são círculos.
Será que um dia, breve, seremos tratados com mais consideração pelos órgãos de comunicação?
Será que vão ter ao seu serviço pessoas que efectivamente sabem e não deixam passar erros primários deste quilate?
VINHO DA MADEIRA
«A sua sopa de alcachofra e os ovos de carpa; os seus filetes de veado macerados em velho Madeira com puré de nozes; as suas amoras geladas...»
In Contos, Eça de Queirós.
UM ATLAS QUE ACABA DE APARECER
Embora aposentado, não perdi o bicho da Geografia: esforço-me por estar à la page ... tanto quanto possível.
Ora, dois prestigiados jornais diários lançaram o "Grande Atlas do século XXI" e, vai daí, apressei-me a adquirir o 1º volume. Comecei por uma rápida desfolhadela até que, por motivos óbvios, me detive mais detalhadamente no que está escrito sobre Portugal. Saltam logo à vista algumas "pérolas":
- «A "revolução dos cravos" de 1974, com o abandono de quase todas as colónias...»
Que colónias não foram abandonadas? (no sentido de não terem acedido à indepêndência. Timor?)
- Legenda:
«... costa do Algarve (...) na parte mais meridional de Portugal, no Mediterrâneo.»
Esta é de cabo-de-esquadra! Ou algo esticou, ou algum outro algo encolheu, ou os dois algos em simultâneo...
- «Paisagem agrária (...) na qual se estendiam cada vez mais em direcção ao sul as originárias estruturas de policulturas intensivas...».
É isso: o Alentejo está um jardim de hortícolas e o Algarve, antes da "invasão" nortista, era uma imensidão onde predominava a monocultura (só não sei de quê!).
- A falta de alimentos e o sempre esclarecedor conceito de «sobrepovoamento» aparecem como causas das «correntes migratórias transoceânicas».
Quando? E em que corrente América-África está o autor a pensar?
Bem, isto em meia página. Valerá a pena gastar mais cera?
GASTRONOMIA
A cidade sensual podia ter, em melhor actividade, a sensualidade da mesa como tem a do sexo, embora mais de língua que no agir.
Os portugueses que primeiro viram o estuário votaram-no a S. Sebastião, santo ao espeto; os franceses descobriram na característica montanha um "pot au beurre"; e quando os portugueses novamente olharam o rochedo, acharam-lhe a forma de pão de açúcar: Antes os índios chamavam ao sítio goa-na-bará, por suas águas (...)
Ai, embora bela paisagem, o lugar não atraía portugueses, nem piratas, que queriam apenas traficar pau-brasil, saguis e papagaios com o gentio.Nada encontrou ali de valioso (...)
Tiveram de provar mandioca. E outras comidas da terra. E foram provadas. Nas enseadas deste rio, comer e manjar atingem significações espantosas, de boca, sexo e intelecto: Comeu! O pau come! Manjou? Estou aí nessa boca? Uma uva! Que broto! Vamos papar, Come-Quieto, Boca de siri!. Comidas meu santo!
In Comidas, meu santo - Guilherme Figueiredo
PROVÉRBIO
(Acabadinho de chegar, não resisti a compartilhá-lo.
Os que não sabem chorar com todo o seu coração, também não sabem rir.
(Meir, Golda)
PROVÉRBIO
Há três coisas na vida que nunca voltam atrás:
a flecha lançada,
a palavra pronunciada
e a oportunidade perdida.
(prov. chinês)
MOLICEIRO
O barco que, bastante apressadamente, aqui deixei ontem, tinha, para além dos eventuais interessados, um destinatário muito especial: o Eng. Belmiro Couto, na esperança de qua a sua criatividade possa vir a sentir-se motivada para mais um impulso em tarefas a que meteu ombros ainda que há não muito tempo. A Ria e eu ficamos a aguardar pelas novidades.
(cont.)
A lição geográfica
Constituem a barra todos os obstáculos que se nos opõem até chegar à jovem.
Os conhecidos de ambos que auxiliam os nossos planos, são as correntes que entram para o mar, são os rios.
Quando os amantes confiam reciprocamente os seus segredos, há a confluência.
Finalmente, o casar é morrer afogado.
In Prosas esquecidas, de Eça de Queirós
A lição geográfica
(cont.)
Todas as paragens, em que podemos falar à donzela, regra geral ao abrigo de todo o compromisso com os papás, chamam-se ancoradoiros ou enseadas.
Quando nos correspondemos por intervenção da criada, é esta um estreito que une os dois mares.
Se a criada não é muito escrupulosa, pode considerar-se canal.
Se é difícil conquistá-la tem de chamar-se um baixio.
In Prosas esquecidas - Eça de Queirós.
A lição geográfica
(cont.)
Se, em vez de uma amiga é uma tia, ou qualquer parente, pessoa elevada, então é um promontório.
Se alcançamos o consentimento da mamã, que nos defende dos furacões do papá, tal mamã é um porto.
Se, porém, não nos defende mas se mostra indiferente a que lhe cortejemos a filha, é simplesmente uma bacia.
In Prosas Esquecidas (Eça de Queirós)
A lição geográfica
Quando um homem ama uma mulher e não acha meio de corresponder-se com ela, o homem é uma ilha.
Se encontra um primo que o aproxima da ninfa, então forma uma península, e o tal primo é a porção de terra que o liga ao continente, é o istmo.
Se a menina tem uma amiga que, reconhecendo a nossa paixão, a incita a que nos corresponda, nos sorria e nos afague, essa amiga, metendo-se pelo mar das nossas ilusões, é um cabo.
(cont.)
(In Prosas esquecidas, Eça de Queirós)