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Wednesday, February 09, 2005

ANTOLOGIA - PROSA

O ESCULTOR
Foi um homem ao mato, diz Isaías, (ou fosse escultor de ofício ou imaginário de devoção), levava o seu machado ou a sua acha às costas, e o seu intento era ir buscar um madeiro para fazer um ídolo.
Olhou para os cedros, para as faias, para os pinhos, para os ciprestes; cortou donde lhe pareceu um tronco, e trouxe-o para casa. Partido o tronco em duas partes, ou em dois cepos, a um destes cepos meteu-lhe o machado e a cunha, fendeu em achas, fez fogo com elas; e aquentou-se e cozinhou o que havia de comer.
Ao outro cepo pôs-lhe a regra; lençou-lhe as linhas; desbastou-o; e tomando, já o maço e o escopro, já agoiva e o buril, foi afeiçoando em forma humana: alisou-lhe uma testa, rasgou-lhe uns olhos, afilou-lhe um nariz, abriu-lhe uma boca; ondeou-lhe uns cabelos ao rosto; foi-lhe seguindo os ombros, os braços, as mãos, o peito, e o resto do corpo até aos pés. E feito em tudo uma figura humana de homem, pô-lo sobre o altar e adorou-o.
Pasma Isaías da cegueira deste escultor, e eu também me admiro dos que fazem o que ele fez. Um cepo, conhecido por cepo, feito homem, e posto em lugar onde há-de ser adorado? Medietatem eius combussi igni, et de reliquo eius idolum faciam? Duas ametades do mesmo tronco, uma ao fogo e outra ao altar? Mas que um cepo haja de ter a forma de cepo, e vá em achas ao fogo, e que o outro cepo, tão amdeira, tão tronco e tão cepo como o outro, o haveis de fazer à força homem, e lhe haveis de dar autoridade, respeito, adoração, divindade? Dir-me-eis que este segundo cepo, que está muito feito, e que tem partes. Sim, tem; mas as que vós fizestes nele. Tem boca, porque vós lhe fizestes boca; tem olhos porque vós lhe fizestes olhos; tem mãos e pés, porque vós lhe fizestes pés e mãos. E se não dizei-lhe que ande com esses pés, ou que obre com essas mãos, ou que fale com essa boca, ou que veja com esses olhos. Pois se tão cepo é agora como era dantes, porque não vai também para o fogo? Ou porque não vem também o outro para o altar?
Não louvo nem condeno. Admiro-me com as turbas.
(Padre António Vieira)

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