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Friday, March 04, 2005

ANTOLOGIA - PROSA (Raul Brandão)

MULHER (cont.)

São elas que alimentam toda esta região de Leiria a Santarém e que levam ao lavrador, ao paleco, como lhe chamam, e ao jornaleiro enfastiado de pão seco o matimento, o presigo saboroso. Com azeitonas, uma caneca de carrascão negro e espesso como tinta, e três sardinhas, já a vida toma outro aspecto para o homem calcinado de remover a terra. São elas que toda a noite, quando se pesca toda a noite, separam o peixe, o amnham, o secam no tendal e o levam para os armazéns de salga. E pela manhã põem-no a caminho para as Caldas (20 km) ou para Alcobaça (12 km) com o peso de duas ou três arrobas à cabeça. Infatigáveis. Em tempos chegavam a ir a Santarém, acompanhando o burro com a carga e trotando ao lado da alimária. Apregoam pelos casais dispersos e deitam a um canto os maiores e mais espertos comerciantes desta terra. À noite dormem - se não há peixe na praia. Se há, partem outra vez com a canastra à cabeça e um pedaço de pão no bolso para o caminho. E o tempo ainda lhes sobra para cuidar dos filhos e para trazer a casa limpa e esteirada. Nenhum pescador vive como o da Nazaré pode-se comer no chão. (...)

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