... TEMPOS QUE SE REPETEM?
... TEMPOS QUE SE REPETEM?
(...) Nós, porém, mergulhados em vinho e no putedo, já não temos ânimo sequer para conhecer as artes tradicionais, antes nos limitamos a censurar a antiguidade, a aprender e a transmitir os seus defeitos. Onde está a dialéctica? Onde a astronomia? Onde o muito avisado caminho da sabedoria? Quem vai agora a um templo formular o voto de alcançar a eloquência? Quem, para atingir a fonte do conhecimento? Já nem sequer aspiram à sanidade do espírito ou do corpo; pelo contrário, ainda não atingiram o recinto do templo e já um promete uma oferenda, se conseguir despachar um parente rico; outro, se desenterrar um tesouro; outro ainda, se conseguir chegar com vida aos trinta milhões de sestércios. O própria senado, mestre de correcção e de bondade, costuma prometer mil libras de ouro ao Capitólio; e para que ninguém hesite em pedir riquezas, tratam de guarnecer até o pecúlio de Júpiter. Em suma: não te admires por a pintura estar em decadência, se aos deuses todos e aos homens parece mais belo um monte de ouro do que as obras de Apeles e de Fídias, esses pobres gregos amalucados.
(in Satyricon, de Petrónio. Ed.: Livros Cotovia)

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