PEDAGOGIA B - V
DIÁRIO
Está-me a doer ter indicado um aluno (...) duas vezes pelo número. Justifica-se a coisa até certo ponto: não assinou o exercício e eu de momento não calculei quem fosse. Agora, por exclusão de partes, já sei que é o Jacob.
Ora aqui têm uma coisa com que o aluno se não irrita: que o chamem por um número. (...) Em Setúbal, onde tive no ano passado coisa de duzentos alunos, eu sabia a certa altura o nome de todos eles; mesmo assim, eles preferiam indicarem-se uns aos outros, junto de mim, pelos respectivos números - como os sobretudos que se deixam nos bengaleiros dos teatros. Eu lutei contra a indiferença deles - mas nisto, como em muitas outras coisas é remar contra a maré, porque o que a gente constrói numa aula vão logo a seguir destruí-lo outros. Ainda há, infelizmente, muito professor que prefere o número.
A respeito de números, lembra-me sempre aquela vez em que fui ao Orfanato falar com o meu amigo Manuel Calvinho, meu aluno nocturno de Francês. Perguntei: «O Calvinho está?» - «O 12, não é?» - «Não: o Calvinho. Então não basta não ter Pai nem Mãe, ainda lhe chamam um número?».
Eis aqui uma coisa a ensinar nas aulas de Português: que um homem é um homem. (a)
(Sebastião da Gama)
(a) Não só nas aulas de Português, mas em tudo o que é aula.

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