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Friday, May 06, 2005

PROSA - Em busca da Idade Média

EM BUSCA DA IDADE MÉDIA

Claro que me agradava não viver na «Idade Média». Adivinhava-a desprovida de muitas comodidades quotidianas de que dispunha o meu presente de então, o do final dos anos trinta. (a)
Mas havia uma certa nostalgia, como se essa despedida da Idade Média não fosse, tão antiga, como se os laços quebrados nos privassem de qualquer coisa, nos afastassem de homens que teria querido entender. O torneio de Ashby ia buscar o seu esplendor ao povo que lá acorria, tão próximo, mas tão diferente! Sentia-o muito longe do público de um desafio de futebol ou de râguebi.
Era jovem. E no entanto havia muitas coisas a morrer. Outras nasciam. Tinha seis anos quando o cinema começou a falar. A nossa família não estava ainda equipada com telefone, mas já os havia e eu via bem as mudanças que introduziram na relação com o espaço e o tempo. A mesma coisa quanto ao automóvel (que, aliás, também não possuíamos) ou a tudo o que dizia respeito à vida quotidiana. Quanto mais não fosse, o aparecimento, mais tarde, dos frigoríficos: durante anos tínhamos vivido ao ritmo venerável das geleiras, onde metíamos blocos de gelo comprados em entrepostos ou a vendedores ambulantes. Depois, de repente, já se podia controlar o frio, troçar do tempo. Tive o «sentido da história»: o único que não foi abalado mais tarde; e ainda assim...

in Em busca da Idade Média, (2004), Jacques le Goff. Lisboa: Editorial Teorema.





(a) Do século XX

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