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Thursday, June 23, 2005

GEOGRAFIA - IDENTIDADE (A melancolia do g...

A MELANCOLIA DO GEÓGRAFO

É aquele que só pode enterder-se com o mundo se o mundo estiver balisado, o que quer poder nomear a cidade, o planalto, o canbo ou o litoral; situar ao norte, ao sul, o terreno vulcânico e os desregramentos humanos por ele favorecidos, o planalto granítico e o seu clima neurasténico, o xisto e o gneisse, as grandes serras, do Buçaco, de Sintra ou da Arrábida, a lagoa e o estuário; identificar a costa, o rio-fronteira, a baía, as termas, a velha ravina, o cristal do vale glaciar do Zêzere, o calcário, e o anel basáltico que cinge Lisboa, o seu mar interior; o pinhal, a batata, a castanha, o chaparro com a sua chuva de bolotas, o broncocele e os calos das mãos; a catedral a norte; o mosteiro a sul, o solo lamacento do Alentejo, a cabra, o bode, o matagal e a charneca, o sável, a resina de eucalipto e o vento na folhagem; a pedreira de mármore rosa ou branco, de Borba ou de Estremoz, utilizado nos púlpitos e nas casas; a íris, o sal marinho, a vasa, a lampreia, a cortiça, os cistos do Algarve, a curva arredondada das suas montanhas, as cidades de feira e as das procissões, a praça, a taberna, os coentros esmagados com alho na sopa de pedra, o campo coberto de oliveiras, a haste que cresce das piteiras quando morrem, o latifúndio, as caçadas, as águias reais, o ouro, o pelourinho, a neve nos socalcos, a matança do porco, a unha suja, o pó das acácias, o nevoeiro no mar e, no céu, a via láctea que indica o caminho de Compostela;
(op. cit.)

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