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Monday, June 20, 2005

GEOGRAFIA - IDENTIDADE

O ATLAS FURTIVO (Cont.)
- Não queremos explicar quase nada, homem... Só nos interessa saber onde estão as cidades e como se chega até lá.
- Com essas garatujas... ninguém compreenderá. Como saberão os viajantes que, para encontrar Ispaão... têm de chegar às montanhas do fogo, que são como pequenas torres despidas, e depois perguntar pelos minaretes que tremem... e, todavia, entre os odores do jardim, seguir pela acéquia até chegar ao rio da vida?
Não se podia discutir com ele, porque tinha a sua razão. As cartas que traçávamos não eram mais que representações da realidade e, com demasiada frequência, os bussoleiros, encerrados na oficina, imersos totalmente no nosso trabalho, confundíamos aqueles desenhos com a própria verdade. O mundo não se podia embutir num mapa, tal como os pensamentos não podiam ser sempre transcritos fielmente. E, quanto mais acertávamos a posição e o nome dos lugares, mais longe estávamos de compreender o sentido final do conjunto. Como ele não se cansava de referir, quanto menos víamos, menos críamos.
Apesar da sua condição de iletrado e cego, o nosso cativo era muito sagaz. Adivinhava que as imagens, os odores, os rumores do Universo eram demasiado ricos para se reduzirem a quatro linhas. Pensei que, se a felicidade existia, devia encontrar-se no interior dos homens sábios como Betros. E procurei seguir o conselho talmúdico do grande rabino Aquiba, o qual dizia que o muro da sabedoria era o silência. Calei-me, aguardei e, decorridas algumas semanas, pude voltar a escutá-lo.
op. cit.

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