POESIA - Bocage
AUTO-RETRATO
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
bem servido de pés, meão na altura,
triste de facha, o mesmo de figura,
nariz alto no meio, e não pequeno;
incapaz de assistir num só terreno,
mais propenso ao furor do que à ternura;
bebendo em níveas mãos, por taça escura,
de zelos infernais letal veneno;
devoto incensador de mil deidades
(digo, de moças mil) num só momento,
e somente no altar amando os frades,
eis Bocage em quem luz algum talento;
saíram dele mesmo estas verdades,
num dia em que se achou mais pachorrento.
Estaremos perante mais um exemplo de tímidas comemorações, à imagem do que está a acontecer com Inês de Castro? Na modéstia do meu contributo, aqui fica este registo no ano do bicentenário da morte do poeta.

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