DO BEM FALAR, DO BEM ESCREVER...
DO BEM FALAR, DO BEM ESCREVER...
Na esperança de que este texto possa contribuir para a defesa da bela língua portuguesa.
CCD-PORTUGUÊS: terceira língua europeia e a sexta mundial "frantuguês".
ex-PR a falar "portunhol"
Valha-nos o Museu de Língua Portuguesa de São Paulo!
www.estacaodaluz.org.br
Já agora que regressei à minha base belga e não volto a outro "planeta" aqui dos arredores senão quinta-feira, vou entrar na polémica dos emigrantes portugueses de França, Luxemburgo, Bélgica e Suíça que, quando de férias em Portugal, falam francês. Melhor dizendo, falam "frantuguês". Já há tempos atrás - logo nos inícios do PortugalClub - aflorei este assunto, o que me valeu toda a espécie de "gentilezas" por parte de quem se sentiu atingido, mas não quis dar o braço a torcer - são raros aqueles que têm a coragem de o fazer relativamente a este ponto sensível que por um lado querem encobrir, mas por outro lado ostentam.
Quando digo "frantuguês" refiro-me a uma espécie de dialecto que mete palavras francesas aportuguesadas e palavras portuguesas, às vezes afrancesadas, tudo isto com um sotaque "nem carne, nem peixe". Não o fazem porque os "filhos" falam francês na escola e com os amigos, mas sim por "petulância", por estarem convencidos de que assim marcam uma certa "diferença", "marca de superioridade" porque se trata de francês. E nós sabemos todos como os Franceses (sobretudo os de Paris) se julgam superiores a qualquer outro povo, como estão convencidos de que a França é o "umbigo" do mundo - isto não é de hoje, já Estrabão o referiu na sua "Geografia". E em todos os países de cultura francófona há esse complexo de superioridade.
Por outro lado, se os filhos não sabem falar português, é porque também não se falava português em casa, visto que os pais preferiam treinar-se a falar "frantuguês" para fazer boa figura em Portugal. Não conseguem, infelizmente, vislumbrar a realidade - que é fazerem uma triste figura, além de terem privado os seus filhos de uma mais-valia, que é aprendizagem de uma língua que, quer se queira quer não, é a terceira língua europeia e a sexta mundial mais falada no mundo. Enquanto que a língua francesa não passa da sexta e décima, respectivamente. Mas, mais espantoso ainda é o caso dos Portugueses de segunda e terceira geração do Luxemburgo, que têm um grande orgulho em falar luxemburguês. Mesmo que vejam, ou melhor ouçam alguém falar português, fingem que não percebem e falam com esse alguém em francês, visto que é a língua geralmente usada pelos estrangeiros. Se o francês, embora num lugar bem atrás do português, é todavia uma língua de grande importância cultural, o luxemburguês não é mais do que um dialecto de origem germânica, tal como o alemão, mas que não evoluíu como língua literária. É este dialecto que desde há uns 17 anos os Luxemburgueses têm vindo a transformar em língua oficial. Se considerarmos que o país tem uma população de cerca de 455 mil habitantes, 32% dos quais são estrangeiros e destes, mais de 12% são portugueses, e que uma grande parte da camada mais culta da população, de origem luxemburguesa, nem sequer fala o luxemburguês (exactamente por o considerar um dialecto inferior à língua francesa), podemos ter uma ideia do número de falantes de luxemburguês - provavelmente em número inferior a muitas línguas indígenas de África ou das Américas. Contudo, todos têm um grande orgulho na sua língua; existem cursos por todo o lado, e os estrangeiros residentes são pressionados para a aprenderem. E criaram há já anos um portal para se aprender o luxemburguês em linha!! Até os Ingleses e os Americanos, tão adversos a aprender outra língua além da sua, acabam em muitos dos casos por ceder à pressão. Os Luxemburgueses são um povo orgulhoso do seu país, que existe como estado independente desde... 1839! Portugal existe como país independente desde 1139! (1143 para quem aceitar a independência somente a partir do consentimento papal). Relativamente aos Portugueses emigrados no Canadá (dos Estados Unidos não posso falar porque nunca estive em contacto com nenhum), o fenómeno é semelhante ao caso francês, embora em menor escala: falam uma mistura de inglês e português. Contudo, a formação das palavras obedece a outro princípio e, na maior parte dos casos, não é por petulância nem complexo de superioridade, mas por desleixo, agravado pelo facto de que os nossos governantes nunca se incomodaram com as comunidades portuguesas, como todos sabemos. Esta atitude dos nossos governantes não é para admirar, pois nem em Portugal existem políticas de Educação e de Cultura dignas desses nomes. Vimos o que se passou recentemente na visita do Primeiro-Ministro a uma escola: as criancinhas dirigiram-se-lhe em inglês! Se calhar até teria gostado que tocassem o "God save the Queen!" Chocante!
Mas haverá algo mais chocante do que ouvir o Presidente da República Portuguesa - em público e como representante da Nação - falar outra língua que não o português? Pois por mais de uma vez se assistiu à vergonhosa atitude do agora ex-PR a falar "portunhol" ou "espanholês" (conforme quiserem chamar a esse dialecto igualmente tão na moda). Além de que foi contra o protocolo, que estipula que o chefe de Estado de um país só deve falar, quando em público e em representação do seu país, na língua desse seu país. É o que faz qualquer outro chefe de Estado digno do cargo que desempenha. Mas não foi só o ex-PR que cometeu essa falta grave. Também Santana Lopes, quando ainda PM, apareceu na televisão espanhola no dia 1 de Outubro de 2004, a falar "espanholês" ou "portunhol". E muitos outros Portugueses o fazem, o que é uma prova de falta de auto-estima e de orgulho, ao mesmo tempo também de arrogância. Se os altos representantes de uma nação não sabem manter uma postura digna e não se poupam ao uso de galicismos e anglicismos, como poderemos condenar o simples cidadão pela mesma falta? Evidentemente, todos somos pessoas livres de pensar pela nossa própria cabeça, sobretudo se aqueles que nos governam não têm essa capacidade. Mas, como o exemplo deve vir sempre de cima... é desculpável que muitos copiem o que julgam ser o modelo correcto. Por outro lado, os órgãos da informação - com especial destaque para a televisão, a chamada "universidade do povo" - cujo papel pedagógico deveria ser uma das suas prioridades, a par com o da informação isenta, são os primeiros a empregarem a torto e a direito toda a espécie de estrangeirismos, aliás bem inúteis, pois a nossa língua de Camões é suficientemente rica para dispensar esse género de "ajuda". Que pena não termos tido, ao longo da nossa História, vários D. Afonso Henriques para nos incutir sentimentos patrióticos que tanto escasseiam ou, o que é pior ainda, parece terem desaparecido! Valha-nos o Museu de Língua Portuguesa de São Paulo! Parabéns! Gostaria de ter mais informação, se possível. O meu bem-haja. Cumprimentos lusófonos.
Dulce Rodrigues www.estacaodaluz.org.br (Museu da lingua portuguesa)

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