FRAGMENTO
Fragmento do jornal d'uma senhora
Há quem afirme que ninguém se conhece a si próprio: que são os nossos amigos e os que vivem mais intimamente ligados connosco os competentes para nos julgarem. Eu por mim penso o contrário e não creio que fosse de difícil acesso a porta do Templo de Delfos, que tinha por legenda - conhece-te e ti mesmo antes de entrar aqui.
Pois se nós que vivemos na intimidade do nosso pensamento, espelho fiel da nossa alma, não conhecermos os nossos defeitos e as nossas virtudes, como podem os outros julgar-nos? Eles que apenas podem apreciar as nossas manifestações exteriores ouvindo-nos e vendo-nos? E se não nos conhecemos, com que direitos afirmamos que os nossos olhos e os nossos ouvidos estão perfeitamente despreocupados quando julgamos os outros? Que o afecto ou a malevolência não alteram em nós as duas faculdades de ver e de julgar?
Aonde estaria a responsabilidade da nossa consciência se não nos conhecêssemos?
(M. M.)

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