POESIA - Bulhão Pato
RETRATO D'UMA PORTUGUESA
Branco-mate o tom da cor.
Pé airoso, breve, estreito.
A boca - botão em flor;
e a linha curva do peito!...
Sorrisos abrindo em pérolas.
distinção, graça no porte.
Pupilas como relâmpagos,
que podem dar vida ou morte!
N'essa forma sobre-humana,
que mais seduz, mais domina?
A carne, porção mundana?
O ideal, porção divina?!
Tomam como orgulho indómito
seu olhar fascinador.
Fascina também e é tímida
uma estrela do Senhor!
No grande baile sorria
mais triste do que ditosa;
pois de tal modo estaria
se acaso fosse orgulhosa!
Como d'esse branco-pálido
ressaem as negras comas?
Caminha, formosa única,
cercada de luz e aromas!
São tantos os teus poderes,
triunfadora invencível,
que nas outras mulheres
a própria inveja é possível!
Surgiste real e etérea!
N'estes dias positivos,
Deus ressuscitou romântico
ao sol dos teus olhos vivos!
(Bulhão Pato, 1885)

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